terça-feira, 1 de maio de 2012

Escrever

Sinto que as palavras já não me sustentam. São apenas fragmentos que vou jogando, tal qual pedrinhas, num lago frio. Elas afundam, são esquecidas. Não mudam nada, não fazem diferença. As palavras que escrevo são apenas para acalmar, silenciar, adormecer certo vazio que é meu. E sei que estou errado em me sustentar nelas, pois são tão encantadoras a ponto de me paralisar diante da verdade, que tem várias faces e todas querem me beijar. Mas não quero nenhuma verdade, pois todas elas, tal qual a fagulha que se apaga, são eternizadas num brilho fátuo: mudam da cor brilhante ao ostracismo de uma cinza. Verdades morrem, voltam ao pó. E eu me sinto pó, mesmo sabendo que, externamente, há quem me considere brilho.

O balanço vazio


Naquele fim de tarde, quando o sol morria lentamente no horizonte, pintando as nuvens de um tom purpúreo e as pessoas que caminhavam ou corriam pelo Jardim Botânico, desapressadas ou desapercebidas do que acontecia ao seu lado, André sentou-se com Fernanda no balanço do parquinho de areia. Meia hora antes, caminhara com ela quase que mudo pela trilha de asfalto, mas decidira que devia colocar para fora o que lhe consumia. Não era algo que estava acostumado a fazer. Mas eu seu interior, algo lhe incomodava.

Fernanda, que até então tinha achado aquele silêncio perturbador, pôs-se a balançar lentamente no brinquedo infantil. Com um sorriso terno, os cabelos castanhos a tocarem-lhe as macias bochechas e as mãos a segurarem na corrente fria do balanço, falou baixinho:

— Eu tenho medo de tanta coisa.

André, que até então continuava emudecido, suspirou, encarou-a com seus lábios forçando um riso frio e perguntou, mesmo sem querer saber:

— Do que, por exemplo?

— Do seu jeito triste de sorrir – levou as mãos ao rosto de André, tocando-lhe delicadamente as maçãs que pendiam num sorriso forçado. Olhava-o com os olhos serenos, envolveu-o num abraço e beijou-lhe os lábios. Sentia o corpo estremecer ao tocar a pele dele, úmida e quente, só que sem vida. André estava vazio, complemente distante, tal qual seu olhar.

Fernanda mordeu seus próprios lábios, num nervosismo quase trêmulo.

— Quer me dizer algo?

— Na verdade, não sei.

— Me diga. Quero que me diga o que você sente.

André suspirou vazio.

— É como se eu não fosse realmente eu, entende?

— Não, não entendo.

— É que... É estranho explicar, mas é como se eu fosse o que os outros gostariam que eu fosse. Mas eu não sou apenas isso. Eu não sou esse cara legal, boa pinta, sempre sorrindo, não. Não sou apenas isso. Eu tenho algo que me é perverso, que me faz sentir desumano, que me faz sentir errado.

— Não consigo entender, André... – passou as mãos no rosto dele, acarinhando-o ternamente, sentindo os fios de uma barba rala roçarem em seus delicados dedos. Não sei até onde quer chegar. Diga-me... O que realmente te aflige tanto?

André abaixou a cabeça, desviando o rosto das mãos que lhe acarinhavam e colocando a face frígida entre os dedos, trêmulos. Encarava o chão repleto de folhas secas, o olhar fixo, sem nada ver. O coração batia forte.

— Eu sinto um vazio que me consome. É como se... É como se eu realmente não me conhecesse. Eu não sinto prazer em viver, nem um pouco. Eu certa vez li uma frase que dizia que nenhum homem é uma ilha. Eu me sinto um arquipélago. É estranho, mas me sinto assim, todo desfragmentado. É como se eu fosse várias ilhas que eu não conhecesse.

— Eu... eu não sei o que lhe dizer.

— Sabe Fernanda, acho que... Esse vazio que sinto é o grande problema. É algo que me consome, é um medo estranho, afobado, como se eu estivesse perdido no meio de todo mundo, mesmo que conhecesse todo mundo. Posso estar no meio de uma multidão, mas me sinto só, por que não sei realmente quem sou e do que sou capaz. É estranho. É.. tipo... Como se eu não pudesse ser feliz por completo...

— Mas você pode ser feliz por completo – disse Fernanda levando-lhe as mãos em volta das costas, abraçando-lhe.

— E por quê? – murmurou André, com os olhos marejados, olhando fixo as folhas que atapetavam o chão num tom marrom, entrecortado por pedrinhas de uma coloração cinza-azulada.

— Por que eu te amo, André.

Por um momento, os segundos que se seguiram pareciam ter se eternizado. O silêncio, quebrado apenas pelo som do vento a brincar com as folhas das árvores, tomou forma num murmuro quase inaudível:

— Mas eu não me amo – levantou-se com o olhar marejado, um nó na garganta teimando-lhe em lhe sufocar num soluço de dor. Deixou Fernanda sozinha, a vê-lo desaparecer lentamente por entre o caminho envolto por árvores, cujo chão, de terra batida, deixava apenas escapar o som de passos abafados pelas folhas caídas. O balanço, ao lado de Fernanda, mais uma vez ficou vazio, balançando triste.

segunda-feira, 30 de abril de 2012



Clique aqui e seja direcionado ao blog de divulgação do livro Consternado

sábado, 14 de abril de 2012

Reflexão sobre a sobrevivência


Quando criança, fechava os olhos e me tornava invisível. Eu tinha essa estranha capacidade de desaparecer apenas com os olhos cerrados – e isso me dava uma vantagem sobre as outras crianças que comigo brincavam de esconde-esconde. Perdi este superpoder. Só lembro-me dele vagamente.

Também tinha a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, com eles, criar histórias, entre o bem e o mal, o justo e o errado, o certo e o duvidoso. Essa capacidade caminhou triste para uma escuridão. Foi suprimida por um tom cada vez mais cinza, que se perdeu num ostracismo interior.

O medo do escuro, sempre presente em momentos em que o silêncio imperava, era um dos meus maiores obstáculos de brincar à noite no quintal de casa. Ali, entre os galhos de acerola ou do cajuzeiro, existia uma estranha entidade que poderia estar ávida para me capturar. Ela foi engolida, tragada por si mesma. E desapareceu como se eu tivesse acendido uma luz.

É estranha a sensação de que certas coisas, por mais diminutas e – aos olhos dos outros, idiotas – se percam. Não é que a inocência cega, ela apenas nos faz enxergar tudo de outra perspectiva. Talvez menos maliciosa e menos perversa do que a perspectiva atual.

Hoje, quando fecho os olhos, sei que é o momento de dormir para repor energias para o dia seguinte, para a rotina cheia de repetições que dão a leve sensação de nunca serem iguais, mas no fundo serem as mesmas.

Quando dou vida a objetos inanimados, não é uma vida repleta de simbolismos. É uma vida maquinal, fria. É o computador que trava e que recebe uns bons xingamentos. É o celular que acaba o crédito e me revela, numa voz gravada, irônica e feliz, que meus créditos acabaram e que eu devo recarregar.

Também não sinto mais medo do escuro e de suas estranhas formas, suas sombras a brincarem com a imaginação. Sinto medo das formas humanas que se projetam entre as esquinas, não sei se mal intencionadas. Sinto medo da violência, não só restrita à escuridão, mas à luz do dia.

Hoje, muitas vezes sinto que parte de mim morreu. Não por que quis sepultá-la, mas por que foi necessário fazê-la. As concepções de uma infância se foram. Restaram apenas uma casca vazia. Não que tenha me tornado frio, longe disso. Apenas tive que me adaptar uma realidade que me sufoca, que tenta me enquadrar em modelos ideais, que nada são ideais. São apenas estilos, criados para que possamos nos adaptar e sobreviver.

Só os mais aptos sobrevivem, é o que Darwin diria. Eu ainda acho que ele errou: só os que sonham sobrevivem. Porém, não o sonho forjado para o sucesso profissional. Sobrevivem apenas os que sonham com dias melhores, com um mundo onde é possível cerrar os olhos e ficar invisível, dar vida a objetos inanimados e, por fim, ter medo do escuro simplesmente por imaginar monstros – e saber que eles não existem.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e estudante de ciências biológicas
www.julianoschiavo.blogspot.com

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quarta-feira, 7 de março de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Consternado - a história completa


Finalmente a segunda parte da história vem a tona!

Baixe o livro, clicando neste link

...

Para quem deseja ler uma história ágil e febril, Consternado é uma boa opção. É a história de Adônis, jovem que vive um conflito mental. Filho de uma família desestruturada, sofre de complexo de Édipo e é insensível a vida dos outros. Mortes, medo, bom humor e libertinagem se misturam num texto cheio de reviravoltas.
O livro é dividido em duas partes. Na primeira, escrita em entre 2006 e 2007, o leitor conhece o universo mental de Adônis. Na segunda parte, escrita entre 2011 e 2012, a história centra-se nas maquinações de Dona Ofélia, as armações por cima de Jaqueline e no cotidiano da família de Carlos e Patrícia. As histórias, em determinados momentos, se cruzam e revelam a teia de interesses das personagens secundárias.
Consternado é indicado para as pessoas admiradoras de história com um misto de suspense e com muita agilidade. Há situações inusitadas, diálogos mais quentes, inserções de personagens em situações vexatórias. O objetivo é oferecer um humor ácido, mas ao mesmo tempo leve. No livro, o politicamente incorreto é de praxe. E é o que realmente dá a forma e estrutura às consternações de cada personagem.

Consternado - a história completa

Finalmente a segunda parte da história vem a tona!

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O Portal: um livro ágil e misterioso


O Portal, de Eliane Raye (Editora Usina das Letras, 202 páginas) é uma história ambientada nas cidades de Nova York e Rio de Janeiro, que leva o leitor a uma dimensão onde o suspense, a aventura e a paixão se fazem presentes do começo ao fim.

O livro traz a história de Elizabeth Macwood, uma garota ruiva, norte-americana, filha de um empresário americano, que decide acompanhá-lo em seu novo compromisso no Brasil. Após uma noite turbulenta, a personagem central acorda com três sinais desconhecidos em suas costas e uma súbita amnésia. A partir daí, tem início uma história permeada por uma escrita clara e concisa: sua graça está na agilidade dos acontecimentos.

A autora, com maestria, traz uma história juvenil, que engloba a busca por um Portal que faz a ponte entre o presente e o passado. Isso desperta o interesse de pessoas que querem o poder que esta conexão entre os tempos pode trazer. Mortes, intrigas e ameaças se tornam frequentes, emoldurando o texto numa névoa de mistério.

Com a ajuda de amigos, Elizabeth, a ruivinha que parece ter tomado um rebite de tão enérgica que é, junta as pistas e, aos poucos, monta um quebra-cabeça que tem a força de prender a atenção dos leitores que admiram histórias ágeis e com doses açucaradas de romance. É uma leitura fácil, descontraída, bem elaborada.

A AUTORA – Eliane Raye é escritora, ilustradora e dentista. Nasceu em Volta Redonda (RJ), criou-se em Brasília e, atualmente, reside no Rio de Janeiro. Foi cantora, designer e é autora do romance O Portal e do livro Os Primeiros Socorros Para os Seus Filhos. Também fez a ilustração do livro Uma Turma Para Dora (Ana Cristina Melo) e Uma Vaca que Não Gostava do Pasto (Nina Krivochein). É também editora do site Tabletes Culturais. Informações: http://elianeraye.com.br/

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Livro para download


Finalmente 'libertei' O Silêncio das Mariposas para download. Os interessados podem baixar o livro clicando aqui.

sábado, 6 de agosto de 2011

Uma taça com sabor de boa leitura



Por: Juliano Schiavo

Tenho cá comigo que um livro se faz com uma boa história, ou várias. Já uma homenagem, por assim dizer, se faz com elementos que remetam ao homenageado. A escritora Georgette Silen, com seu livro Apenas Uma Taça - Um Brinde ao Mestre Stoker, une os dois pontos: traz 15 boas histórias e uma homenagem aos pés daquele que deu vida aos vampiros: Bram Stoker, o grande mestre.

Neste livro, editado pela Estronho, Georgette transforma o mito vampiro em contos e novelas, cada um com sua graciosidade, profundidade e dilema daqueles que vivem uma vida em morte. E que fazem da morte (dos outros, aos goles), sua vida.

A escritora oferece, em sua taça textual, por exemplo, o suspense do texto O Colecionador de Ossos. Para os aficionados em vampiros que fogem um pouquinho do padrão, Georgette apresenta O Beijo do Loogaroo, onde a criatura que sorve sangue tem um quê a mais de demônio. Tirando poeira das catacumbas, e rememorando a história daquela criaturinha do Drácula, a autora revela o Manuscrito Perdido de Lucy Westenra (póstumo). E, dessa maneira, os textos prosseguem afiados, tal como as presas de um vampiro.

Os contos e as novelas, tão bem lapidados, oferecem ao leitor a oportunidade de desfrutar – ou até mesmo sugar da jugular de Georgette – toda a complexidade, beleza e sensualidade daquelas criaturas dotadas do dom da eternidade em suas veias. Caminhantes noturnos, com olhares famintos, lábios sedentos e com passos ligeiros e sensuais: eis ai os vampiros de Georgette, criados e emoldurados num clima soturno, tenebroso e, ao mesmo tempo, tão envolvente – tal como deve ser um vampiro.

Apenas Uma Taça vai além de seu nome. Basta apenas um pequeno gole para se sentir inebriado com os detalhes deste livro, que deve ser sorvido por olhos ávidos por boas histórias fantásticas e com elementos sobrenaturais. É nesse ponto que reside a graça e harmonia das letras da autora: os textos são trabalhados, diretos, sem rodeios – e com um clima que faz toda diferença: o sobrenatural torna-se natural nas descrições. Vale a pena degustar e brindar lentamente esta taça com sabor de boa leitura.

A AUTORA - Georgette Silen nasceu em Caçapava - SP. Tem 38 anos, duas filhas e é professora de arte. Também trabalha com teatro há vinte e dois anos e já escreveu e produziu peças teatrais, ganhou prêmios como atriz e diretora em várias cidades do interior paulista e também na capital. É escritora de ficção e fantasia, com contos publicados nas antologias Dimensões.Br e Marcas na Parede da Andross Editora.

Organizou a antologia O Grimoire dos Vampiros pela Editora Literata, participa da Antologia Folhas de Espantos, da Editora Don Munhoz e da antologia Metamorfose: Fúria dos Lobisomens e Poe 200 Anos da Editora All Print, Paradigmas 4, da Tarja Editorial, Sombrias Escrituras da Cidadela Editorial. Também é autora convidada da Coleção Extraneus, promovida pelo site Estronho e Esquésito, organizadora da Coletânea Histórias Fantásticas da Cidadela Editorial e autora do romance Lázarus, pela editora Novo Século.


•ANTOLOGIA DE CONTOS

•Autora: Georgette Silen
•Capa e Diagramação: M. D. Amado
•Prefácio: Cazeri Jr.
•ISBN: 978-85-64590-07-6
•Formato: 14 x 21cm
•350 páginas
•Capa em papel cartão 250g, laminação fosca, orelhas 6cm


Gostou? Quer adquirir o livro em pré-venda com descontos e brindes? Acesse o site da Editora Estronho e reserve o seu, com direito a marcadores exclusivos, botons e bizonhas que você pode trocar por livros na loja.



domingo, 10 de abril de 2011

Livros para baixar

Disponível para download as 100 primeiras páginas do livro "O Silêncio das Mariposas"

Para os amantes de histórias de vampiros, está disponível para download as 100 primeiras páginas do "O Silêncio das Mariposas". O livro traz a história de uma personagem sem nome e sem sexo, que faz uma reflexão sobre sua vida, desde a infância até o momento em que se transforma em vampira. É um livro com sensualidade, reflexão e melancolia.
Confira! Clique AQUI


Baixe também os livros gratuitamente:

Sociedade do lixo
Sociedade do Lixo é um livro-reportagem desenvolvido em 2008. Há seis histórias reais, que fazem uso do jornalismo literário-interpretativo, desvendando uma sociedade que vive, muitas vezes, esquecida: a sociedade do lixo.
Para baixar, clique AQUI

Consternado
Já Consternado é uma trama repleta de palavras de baixo-calão, humor, reviravoltas. Trata-se da história de Adônis, um cara com Complexo de Édipo, que vive com sua meio-irmã, Suzana. Ele delira entre momentos de lucidez e loucura.
Para baixar, clique AQUI

terça-feira, 8 de março de 2011

Há grades em minha janela


Minha janela tem grades. É uma constatação óbvia, que surgiu no momento em que me deitei na cama e olhei pela luz que penetrava pelo quarto, dissolvendo os resquícios de escuridão. Não que eu seja um observador atento, meticuloso, que perde os momentos com o olhar fixado numa imagem, a decompô-la em diversos sentidos. Foi apenas uma observação boba, mas que me deixou estranho, por entender que não deveria haver grades em minha janela.

Aquela forma quadriculada, soldada em ferro, impede-me de ver o horizonte sem riscos. Ele sempre surge manchado pelas formas forjadas em metal, tal qual uma ferida, que macula o olhar. Grades que existem para barrar um possível invasor, um sequestrador de nossa calmaria. É a promessa de segurança, mas uma segurança que limita a visão. E, tal qual um pássaro preso em uma gaiola, torno-me refém dos medos, enquanto me protejo por detrás de grades, frágeis grades, mas que passam aquela sensação de segurança.

Pergunto-me: deveria ser assim? Que liberdade é essa onde devemos colocar grades nas janelas, restringir nossa contemplação do horizonte para tentar buscar segurança? Não entendo a que ponto chegamos. Preocupações, medos, fobias, uma ansiedade de viver em segurança e, ao mesmo tempo, preso em nossos casulos, com medo da violência. Para contemplar o céu, as grades. Para termos segurança, os metais mais vis sustentam a sensação de proteção.

Nunca vivi o tempo em que as portas ficavam destrancadas à noite. Isso faz parte de lendas contatadas por pessoas mais velhas, histórias distantes, que não fazem parte do meu dia-a-dia. Não que aquela sociedade era melhor, superior. É a mesma sociedade de hoje. Só que, atualmente, há uma parafernália midiática tão intensa, uma diferença de renda ainda maior e uma sensação de vazio interior cada vez mais acentuada pelos progressos tecnológicos. Somos reféns dos nossos medos, das nossas dores, das nossas grades. Pergunto-me: para onde posso dar o próximo passo sem me importar com um possível furto do meu bem-estar?

Nessa sociedade de câmeras espalhadas aos sete ventos, com um sistema Big Brother espiando todos os cantos, com armas letais, cercas elétricas e toda parafernália de segurança, ainda tenho em minha janela uma grade. Não deveria estar ali, pois sufoca a visão de um mundo sem restrições. Mas existe, para oferecer a falsa imagem de que me protege. E assim caminhamos: cambaleantes e com grades a sufocar nossos passos...

Juliano Schiavo, 23 anos, é assessor de imprensa, escritor e estudante de ciências biológicas
Contato: jssjuliano@yahoo.com.br

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

2011

E novas mudanças se iniciam...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Lázarus - resenha


Há certos elementos necessários para se fixar os olhos, deglutir as palavras e se envolver com a história de um livro. Dentre esses elementos pode-se destacar o bom texto, a fluência das palavras, a criatividade e, acima de tudo, um enredo que prenda a atenção do leitor. Lázarus, de Georgette Silen (Editora Novo Século) consegue sintetizar tudo isso, de forma a oferecer uma leitura prazerosa.

O livro, publicado no ano de 2010, revela a história da museóloga Laura Vargas que, recebe um convite para ser curadora em um museu na Inglaterra, na cidade de Bristol. Ela aceita a oportunidade e se muda com a filha adolescente, Cinthia. E, com a mudança, a trama se desenvolve com maestria, oferecendo ao leitor uma saga com vampiros e outros seres sobrenaturais, que mesclam seus seus poderes e influências no mundo mortal, sem serem percebidos pela sociedade.

O livro contém doses balanceadas de romance, sempre permeadas por suspense e mistérios sobrenaturais. Desde que se muda para Bristol, Laura, logo de cara, já recebe a notícia que a cidade tem um “serial killer”, que deixa suas vítimas sem sangue. A partir deste ponto, a museóloga começa a tomar conhecimento de que vampiros não são apenas um mito: vivem em sintonia com a sociedade e respondem a uma Ordem, de forma a não criarem conflitos (não tão nítidos) com a humanidade.

O nome Lázarus, que dá título ao livro, se explica no decorrer da trama. Se atrever a contar o que significa, é acabar com o diferencial do livro. Livro que, por sinal, é bem criativo e cheio de suspense, exigindo fôlego do leitor para dar braçadas num mundo secreto, onde vampiros e humanos travam uma luta pela estabilidade – e pelo poder. Sempre o poder.

Adendo: Lázarus é o primeiro volume da série, que contará com mais três livros: Panacéia, Nênia e Zênite.Mais informações: http://sagalazarus.blogspot.com/

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Falando em nuvens


A chuva cai leve e sorrateira. O céu, com uma cor cinza, é adornado por nuvens em forma de algodão doce. Um leve vento passa, faz com que os galhos das árvores bailem lentamente, feito braços verdes mexendo-se ao sabor de uma música. Música feita pelo barulho da chuva, que se choca com a grama, com os telhados marrons, com o asfalto cinza-azulado, com a calçada de basalto, com a guarda-chuva que guarda a pessoa da chuva. Mais um dia. Assim como tantos outros, que se revezam numa brincadeira climática.

Há dias em que se abre a janela, o sol percorre cada canto com sua luz, deixa o céu com seu azul límpido. Límpido, mas também adornado com nuvens espaçadas, rabiscadas no quadro azul, sempre dançando ao sabor do vento. Nuvens. Sempre as nuvens presentes. E o que me leva a descrevê-las? Talvez sua força metafórica: somos, muitas vezes, guiados por nuvens, que causam um enevoamento em nossos olhos, um embaciamento da visão.

Na correria diária, entre o acordar, tomar café da manhã, escovar os dentes, se banhar, preparar para o dia que nasce, eis que começam a surgir, mesmo que sem querer, algumas nuvens que embaçam nossa visão. São os problemas, as tarefas não concluídas, o estresse de dirigir num trânsito cada vez mais caótico, o barulho da televisão ligada, os celulares tocando com seus diferentes toques, uma profusão de barulhos e mistura de sentidos. Que captam nosso tempo, embaçam nossa visão, surrupiam nossa capacidade de refletir.

As nuvens, esse embaciamento visual, nos impedem de olhar para o horizonte tal como ele é. Ludibriam, parecem brincar com nossos sentidos. Nos desorientam, nos fazem perder o norte, o fio condutor. Os problemas, sempre marteladores em nossas cabeças, criam falsos juízos, respostas conflituosas, desorientação nos passos a serem dados. É quase impossível enxergar por entre as nuvens que surgem diante de nossos olhos. E sempre me pergunto: como espairecer esses problemas, libertar a visão dessas névoas esbranquiçadas e sempre limitadoras?

Por mais que não tenha encontrado a resposta definitiva – gostaria de saber quem a tivesse – aos poucos fui percebendo que, para tentar se livrar desse mal súbito que se espreita em nossos olhares, a melhor alternativa é tentar atravessar essa barreira limitadora. Lutar contra os problemas, enfrentar os medos, tentar ir além do conforto que criamos ao nosso redor. As nuvens surgem pois criamos redomas de proteção, que acabam por se embaçar com nossa respiração – muitas vezes ofegante. Não é uma tarefa fácil, mas ao menos é um pequeno passo, em busca de um desanuviamento visual. A reflexão é um caminho interessante, bem-vindo, que requer força de vontade.


Juliano Schiavo, jornalista, escritor e estudante de ciências biológicas
www.julianoschiavo.blogspot.com

domingo, 14 de novembro de 2010

Nostalgia



Deitei-me, certa noite, no chão. E fiquei a observar as estrelas. Por sorte, não haviam nuvens para ofuscar o brilho azulado. Este brilho distante, vindo das profundezas desse espaço não explorado, frio, distante. Suspirei lentamente, sentindo o ar preenchendo meus pulmões. Por momentos, meus pensamento vagaram, sem rumo, a uma série de questionamentos conflitantes. Mas o que me tocou, de certa forma, foi pensar no quão rápido é o passar da vida.

É como se, em segundos, eu ainda tivesse meus oito anos e ainda brincasse de esconde-esconde com meus colegas da pequena rua onde cresci. Dar a volta ao quarteirão era o máximo, uma vez que desbravávamos um ambiente proibido: era perigoso, poderia haver figuras similares ao temível homem-do-saco, que sequestravam crianças para todo o sempre. Medos infantis, nunca infância onde brincar era sinônimo de estar na rua e não confinado em salas de jogos eletrônicos.

Abri os olhos e lá estava eu, deitado. Entregue a contemplar as estrelas. Minha cachorra, Gisele, com as pernas esguias e compridas – tal qual a modelo Bündchen – aproximou-se sorrateiramente. Levei as mãos até ela para passar-lhe a mão na cabeça. Correu serelelepe, tal qual cachorra levada que é.

Lembrei-me de outros cachorros, que permearam minha infância e adolescência. Pitanga, o vira-lata que corria atrás das corujas. Barão, o pintcher que me defendia e vivia a caçar passarinhos e insetos. Trícia, uma cachorra que não me suportava – tinha ciúmes de mim. Quita, uma bobalhona, sem expressão. Chanty, o adorador de chocolate, bravo e ao mesmo tempo carinhoso com minha mãe. Talanta, mãe de Chanty, adoradora de pedaços de coco e nacos congelados de carne moída. Roque, o coração de manteiga. Rúbia, a enfezada mais carinhosa que conheci. E, por fim, Zequinha, meu eterno cão-baleia, gordo, estufado, que me deixou muita saudade. Adorava passear de coleira e comer castanhas-do-Pará. Mas como tudo, ficaram nas lembranças, levados pelos incansáveis ponteiros do tempo.

Levantei-me do chão. Parei de olhar as estrelas. Entrei para dentro de casa. Naquela noite, demorei a dormir. Pensava em tantas coisas que tinha feito. Outras tantas que não fiz. Pensava no meu futuro, nas incertezas e certezas dessa caminhada, grande caminhada, que é a vida. Pensei nos amigos que não mais falava e nos que eu ainda via. Pensei no meu trabalho, meu estudo, minha vida pessoal. Suspirei.

E a reflexão sobre o tempo voltou em minha cabeça. Insistente, marteladora, tal qual um tic tac. Tudo se vai, esvai, se perde. Ficam na memória as sensações, as coisas boas e as ruins. Cada um faz sua história dentro de suas possibilidades. Ao menos isso o tempo não nos nega. Ao mesmo há a possibilidade de ser nostálgico.

Juliano Schiavo, jornalista, escritor e estudante de ciências biológicas
www.julianoschiavo.blogspot.com

sábado, 30 de outubro de 2010

Resenha - Barro, areia, óleo de baleia


Numa narrativa rápida, quase telegráfica, eis que é edificado Barro, Areia, Óleo de Baleia, de Leandro Leite Leocadio (120 páginas). O livro, de 21 contos, tem como argamassa uma escrita rápida, permeada de pontos para o suspiro e, quiçá, uma breve reflexão sobre certos aspectos de nossa sociedade dissolvida em areia: corrupção, traição, doenças, fetiches, insanidade e tantas outras imperfeições que a fazem única.

Para dar liga, com seu óleo de baleia, eis que surge um humor leve, muitas vezes ácido, mas nunca apagado: Leocadio extrai do barro o riso, ou seja, faz da palavra um conjunto de frases, que se mesclam num texto bem acabado, rápido, suspirado. Traz a madame chique, famosa pelo 171, a enganar o marido. Revela o insano que, por criar em seu corpo a berne e expurgá-la em mosca, a chama de filha. Não contente, Leocadio faz de um copo de arroz cru a fartura de uma família a beira da morte nutricional.

Nos contos há histórias diversas: um beijo desejado, a comemoração de bodas de guimba (bituca de cigarro), um corpo seco a se esgueirar pelos cantos obscuros. Há ainda lembranças de uma infância, onde uma mãe vive a martelar na cabeça do filho que o frio mata – mas não é exatamente ele que o leva ao fim. Nos contos também é permitido a um poeta escrever sua gênesis. Ou, semelhança a realidade, uma pessoa que nada sabe, parecer que tudo sabe. E subir na vida.

Com apresentação do escritor Moacyr Scliar, Barro, Areia, Óleo de Baleia é um livro de contos com uma tipografia leve, bem escolhida. Sua diagramação explora o branco nas páginas, dá a sensação de respiração, de brisa marítima. Combina com a capa, em tons de areia, possivelmente de um mar. Mar de criatividade, sensibilidade e bom gosto em revelar microcontos que, mesmo sendo micro, são densos e poéticos. É, por fim, um livro bonito, com uma estética agradável, indicado para ler em doses homeopáticas para relaxar.

O autor - Leandro Leite Leocadio (Rio de Janeiro, 20 de março de 1975) é um poeta, contista, ilustrador e cartunista brasileiro. Expôs seus cartuns por duas vezes no Centro Cultural São Paulo (1995 e 1997). Escreveu para a revista Bundas e para o jornal O Pasquim 21 (2001/2004), ambos editados pelo escritor e cartunista Ziraldo. Foi um dos autores convidados para a oficina da FLIP em 2007 e 2009 e como palestrante para a OFF FLIP (2006, 2007 e 2009).

É o autor do livro Os desmandamentos (2007) e um dos autores da antologia M(ai)S, organizada pelo professor da USP Antonio Vicente Pietroforte e pelo poeta Glauco Mattoso (2008). Também coordena, em diversas instituições, cursos e oficinas de criação literária para autores com obra ainda em formação. É membro e um dos idealizadores do coletivo poético Os Maletras, onde escritores fazem, de forma despojada e irreverente, uma leitura dramática de seus textos e de outros, clássicos e contemporâneos.

Contato pelo e-mail: leandroleiteleocadio@hotmail.com
Mais informações: Os Desmandamentos

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Painel de jornalistas formados pela instituição é atração da terceira noite da SeCom

Por Paloma Barbosa Retirado de Em Foco na Web

No dia 6 de outubro, no Anfiteatro do ISCA Faculdades, foi realizada a terceira noite da SeCom (Semana de Comunicação), que contou com a presença de ex-alunos ilustres do curso de Jornalismo. Os profissionais participaram de um painel de discussão, no qual relataram suas experiências e manifestaram opiniões relacionadas ao mundo midiático. No encerramento, os convidados responderam às perguntas do público e orientaram os futuros jornalistas presentes.




Os profissionais convidados foram: Carolina Rodrigues, apresentadora da Rádio CBN Campinas, Fabiana Fatoreto, apresentadora e produtora da TV Jornal de Limeira, Juliano Schiavo, assessor de comunicação da Prefeitura Municipal de Piracicaba e Rodrigo de Proença Guidi, editor-assistente de Economia e Cidades do Jornal de Piracicaba.

Inicialmente cada jornalista narrou um pouco sobre sua trajetória no curso de Jornalismo e sobre sua carreira na área. Todos demonstraram emoção de voltar à faculdade e citaram professores e colegas que marcaram suas passagens. Carolina Rodrigues foi a primeira a falar e logo advertiu aos aspirantes: “Ser jornalista é ser uma constante adaptação”.

No debate foi levantada a questão da influência da mídia nas eleições e Fabiana Fatoreto se posicionou: “Com a massificação da informação, o jornalista se limita e acaba realizando o mesmo trabalho de sempre”.


Outro tema abordado foi a ética na profissão. “Ética se aprende em casa. Se você não a aprendeu, não é na faculdade que você vai”, afirma Rodrigo Guidi.

O questionamento sobre a não-obrigatoriedade do diploma de Jornalismo foi inevitável. “O conhecimento teórico é muito importante para uma boa prática”, disse Juliano Schiavo, defendendo a formação acadêmica.

“Achei muito interessante. Gostei muito do posicionamento crítico e claro de Guidi que ressaltou a importância da ética jornalística e da sindicalização”, afirma a professora Valquiria Maria Augusti.





Fotos: Denis Fernando

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Resenha do livro Sexo Anal




Numa narrativa rápida, ágil e desbocada – não no sentindo propriamente chulo, mas sem reservas e pudores – Sexo Anal [uma novela marrom], de Luiz Biajoni, faz de uma hemorróida o estopim de uma história onde o sexo, a perversão e os bastidores de um jornal se cruzam em um livro de 218 páginas. O nome, Sexo Anal, choca logo de cara, mas não há um título melhor para defini-lo: é o elemento desencadeador dos acontecimentos.

Virgínia, uma jornalista recém-formada, descobre no sexo anal feito com seu namorado, Luiz, uma fonte de prazer – a única que realmente a satisfaz e a enlouquece. Porém, surge um inconveniente: uma hemorróida, que a leva até as mãos – ou outra parte do corpo – do proctologista Dr. Júlio. Tocada pelo médico, em uma parte que a faz delirar, se entrega ao momento – e ao proctologista. Enfim, trai seu namorado e a trama se inicia.

Sexo anal permite penetrar vagarosamente – com perdão da brincadeira – nos bastidores de uma redação jornalística, onde Virgínia, sendo parceira de reportagem de Assis, tem que reportar a história de um estupro seguido de morte de uma adolescente de 13 anos. Nos desdobramentos da história, o leitor começa a entender que, nem tudo o que está nas páginas de um jornal é reflexo da realidade. Por isso, a imprensa pode ser chamada de marrom. O que combina, e muito, com o subtítulo do livro.

Com uma linguagem simples, sem rebuscamentos e direta, Biajoni proporciona uma literatura rápida, quase febril, no sentido de descrever as cenas, incrementar com ação e, por fim, amarrar com um erotismo sem ser chulo. É, antes de tudo, uma obra para se divertir e dar algumas risadas com as situações embaraçosas da personagem. Seus dilemas, seus prazeres, suas conseqüências: tudo é articulado de forma a envolver o leitor nesta história que já conta com mais de dez mil downloads. Vale a pena conferir.

domingo, 17 de outubro de 2010

Reflexão de uma campanha

Nesse debate que se trava diariamente, temperado pela mídia com seus disse-que-disse-não-disse, eis que surge aquela sensação de frustração com tudo o que vemos. Falta ânimo para ler política. Não há entusiasmo para debater. Tudo é muito igual, homogêneo, complicado de se separar.

Se de um lado temos uma onda vermelha, do outro temos uma onda azul. Que, por incrível que pareçam, são muito semelhantes, sem muitas diferenças. São cores primárias, uma quente, outra fria, que nada mudam, apenas servem para colorir essa política feita de quadros brancos, que existem para serem pintados de acordo com as necessidades.

A onda verde oxigenou o primeiro turno, mas não decolou – talvez por causa das pesquisas que nada disseram e só contribuíram para espalhar uma névoa no debate. Uma pena. Quem perdeu com isso? Quem ganhou? Façam as conjecturas. Não é preciso pensar muito para saber para qual lado pendeu a balança e em que pedaço rompeu-se a corda.

Nesse marasmo de projetos, nessa imensidão de discursos, eis que continuamos uma sociedade abortada. Se um prega que deseja ser a continuação e o outro prega que o País pode mais, eis que nos deparamos com uma incógnita: o que arriscar? No que acreditar quando somos frutos de um ambiente abortado de princípios, de coerência, de verdades, de ética?

O problema não está na escolha que faremos. O problema está no que fazemos. Ruímos na medida em que, nas ações individuais, nos entregamos às pequenas tentações: a furadinha de fila, o passar no sinal vermelho, o gole de cerveja no volante e tantas outras pequenas infrações e ações para se autobeneficiar. Eis aí a falta da honestidade individual, que ressoa numa caixa maior, numa caixa de pandora chamada sociedade. E ainda exigimos ética, coerência, hombridade, quando somos, na verdade, hipócritas em certos sentidos. Deveríamos mudar primeiro para exigirmos mudanças. Ou isso seria pedir demais?

Tenho minhas inclinações políticas, minhas preferências ideológicas, meu ideal de País. Tenho comigo a certeza de que não devemos nos omitir num voto branco ou nulo. Pois anular ou votar em branco é como dar um tiro a esmo, sem pontaria. É perder a oportunidade de escolher aquele que, mesmo sendo tão igual ao outro em muitos aspectos – principalmente os de marketing – pode representar mudanças. Que a escolha dessa sociedade abortada de princípios, ao menos, se paute por uma reflexão. Ao menos isso.


Juliano Schiavo é jornalista, escritor e estudante de ciências biológicas
Blog: www.julianoschiavo.blogspot.com

domingo, 10 de outubro de 2010

Os Contos Proibidos do Sr. Arcano

Numa narrativa que se ramifica em 20 contos, o livro Os Contos Proibidos do Sr. Arcano (Editora Multifoco – 167 páginas) chegou-me em mãos por meio de um concurso diferente: a produção de um book-trailer, ou seja, um trailer do livro. Papel difícil, uma vez que são 20 contos, 20 diferentes versões de histórias sobre sangue, mistério e horror que tem que ser representados por um vídeo. Mas conquistei o primeiro lugar com o vídeo abaixo:



Como prêmio, ganhei um exemplar autografado por Arcano. Depois de lido, venho com a resenha:


O livro Os Contos Proibidos do Sr. Arcano (Editora Multifoco – 214 páginas) traz em suas páginas um retrato da alma de um autor aficionado por temas que envolvem o mundo obscuro. Sr. Arcano, pseudônimo literário de Alexandre Souza, oferece aos leitores 20 contos. Todos temperados com um misto de fantasia, suspense, criatividade e elementos sobrenaturais, chocando e confundindo o leitor em tramas curtas, mas interessantes. Às vezes, sombrias até demais, a ponto de envolver a leitura numa névoa de estranhamento.

Entre os elementos presentes nos contos, os animais notívagos, tais como corujas, gatos e morcegos se fazem presentes. No conto A Coruja, por exemplo, o leitor é levado por asas plumosas e obscuras, que o envolvem numa microtrama onde a realidade se confunde com sonhos. Já o conto O Morcego e a Lama empurram o leitor num ambiente cercado por imagens oriundas da cabeça do morcego, entregue à lama, ou seja, à morte. Neste conto, o mamífero voador se torna o narrador de sua saga, ou melhor, seu fim (?).

Na Beira do Precipício, por sua vez, traz a história de um abismo que encanta e leva a todos para um mundo de esquecimento. Num pulo, eis que tudo é ceifado. Dor, medo, agonia, alucinação: tudo é dragado pelo precipício. E este, por sua vez, se desdobra em outros três contos: Na Beira do Precipício II (O anjo), Na Beira do Precipício III (A boneca colorida) e Na Beira do Precipício IV (A história de Gnomo). Todos estes contos amarrados ao primeiro, mas com dinâmicas próprias – e loucuras também.

Nos textos, vez ou outra, surge uma crítica ao fanatismo religioso: que obscurece a visão e semeia uma semente de mal-estar social. Há críticas veladas a este tipo de fanatismo. Outras vezes, as críticas são densas, quase grifadas de tão fortes que se encontram – o que poderia ser editado.

Fora isso, os textos se fixam no fantástico, na criatividade e na escuridão pregada por Sr. Arcano: os elementos oriundos das trevas não devem ser esquecidos. Eles estão sempre presentes, mesmo que a luz de uma lâmpada ou o lampejo da lua eliminem o breu do horizonte. É um livro de fácil leitura, indicado a quem, principalmente, quer mergulhar em histórias de suspense, sangue e loucura. Uma loucura exorcizada nos Contos Proibidos do Sr. Arcano.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Juntando dois textos do blog

Estou sem tempo para ter tempo de perdê-lo. Eis aqui minha grande aflição. Por mais que tente estender meus dias, eles escorrem, escorrem, escorrem... É aquela sensação de querer abraçar o mundo todo ao mesmo tempo e se perder nos pequenos desvios de cansaço, fechando os olhos, apagando, tentando se esquecer um pouco dessa loucura a que nos submetemos: vida, trabalho, estudo.
Mas nesses momentos fugazes, nestas idas e vindas dessa vida repleta de obrigações, certas situações nos fazem pensar sobre nossos passos. Acontecimentos perdidos no dia a dia, mas que representam algo que deve ser pensado. Para muitos, o que vou relatar abaixo é sem muita importância. Para mim, me fez pensar sobre algumas coisas.
Foi num domingo. O telefone tocou, era meu pai. Atendi.
- Filho, um amigo seu está indo aí te visitar.
- Quem é?
- O Emídio.
No mesmo instante, a campainha tocou. Olhei pela sacada e lá estava ele. Sorri e disse para ele me esperar que eu estava descendo. Abri o portão. Ele não acreditou quando me reviu. Seus olhos brilhavam, marejados de emoção. Tinha os cabelos bem brancos, meio ralos. O mesmo olhar de bondade que eu conheci quando tinha meus 8, 9, 10 anos de idade.
- Juliano, é você? Lembra de mim?
- Sim. É o Emídio! Lembro sim!
- Ah, aposto que seu pai ligou e te disse.
- Sim, ele ligou. Mas eu lembro de você sim. Você levava seu filho jogar bola no campo.
Ele me abraçou. Chorou. Disse que jamais me reconheceria na rua. Minha tia saiu na sacada. Ele levantou os olhos marejados e, enquanto enxugava as lágrimas, falava com ela:
- Não acredito! Sou emotivo demais tia! Estou emocionado em rever meu amigo Juliano – E me abraçou novamente. Convidei-o para entrar, mas disse-me estava só de passagem.
Naquele domingo eu me senti estranhamente feliz. Talvez por notar que sou querido, mesmo que tenha perdido o contato a tanto tempo. Sorri com o riso daqueles que se sentem gratos por esses pequenos momentos de emoção. Lembrei-me que a vida é um caminho, um longo caminho, que muitas vezes se perde, mas também se cruza.
Do episódio, refleti sobre certos acontecimentos. As atribulações diárias, ou seja, esse vai e vem maluco, que no final da tarde rende-nos o cansaço – tanto físico, quanto mental – nos empurra cada vez mais a um vale da solidão. Nos afastamos de amigos, não porque queremos. A vida nos coloca em outro caminho. Talvez por nossas escolhas, privilegiando o profissional ou meta pessoal.
O paradoxo é que, mesmo cada vez mais conectados com as pessoas, por meio de um mundo digital (internet), nos desconectamos cada vez mais da vida real. Perdemos contatos com aqueles que estimamos. Nos entregamos ao cansaço do final de tarde. E, assim, acabamos num passo trôpego, a caminhar cada vez mais no sentido de se perder das pessoas. A pergunta que me faço: por quê?

domingo, 29 de agosto de 2010

Só para colocar algo

Eis que mais uma vez me pego surpreendido (nem tanto assim) com meus pensamentos distantes. Desde que as aulas da facul retornaram, minha vida virou aquela rotina maluca de vai e vem, vem e vai. Faço a ponte Americana - Piracicaba - Americana - Araras - Americana. Vida pendular.

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Sinto falta de começar a escrever um novo livro. Mas não tenho motivação, assunto ou ideia. Oscilo entre algo engraçado e algo triste. Alguma sugestão?

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Tenho que me patrulhar. Percebi nesses dias de aula que sou inseguro demais, apesar de fazer as coisas com atenção. Sempre tenho que perguntar se estou fazendo certo. Tá na hora de fazer e se preocupar de menos.

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Hoje vou ver se aprendo um pouco de física com um professor particular. Pelo menos que ele elucide um pouco minhas ideias, pois não faço a mínima ideia do que seja um vetor, as leis de Newton, força cinética e por aí vai

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lord Gago UFSCar Brasil

Eu fui diretor, coreógrafo e editor de imagem:

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma análise do livro Nada Além – Petrus Evelyn


O livro Nada Além, de Petrus Evelyn, oferece aos leitores uma história com elementos fantásticos, que mesclam narrativas em primeira e terceira pessoa. O texto traz, ainda, recursos como poesia, teatro, cartas e diversos estilos para descrever as aventuras de um moço, cujo nome e outros detalhes não são moldados: é apenas conhecido como Moço.


E isso basta para a história de um garoto que procura se aventurar pelo mundo, saindo da zona de conforto de seu quarto, sua família, seus livros. E caminha a esmo, sem bússola a não ser a do autor.


Moço é insípido, incolor, inodoro. Uma personagem criada para caminhar por cidades fundadas em pré-conceitos religiosos, maniqueísmos, inquietações políticas e embates entre visões. É uma personagem aberta à imaginação: ele surge – metaforicamente, segundo esta análise – como um bonequinho de palitinho, feito para ser adornado com a imaginação do leitor. Ou seja: coloca-se a roupagem nele que desejar.


A narrativa é pincelada por interrupções do autor pra explicar o motivo das escolhas e caminhos seguidos pela personagem. Moço, apesar de ter sido criado para buscar seu eu, fica refém de seu criador, que vira e mexe pontua suas observações pessoais, suas inquietações frentes a escrita do livro e, por fim, questiona-se veladamente o que o leitor vai pensar da história.


A grosso modo, a forma como se dá a inclusão do autor nas páginas do livro é semelhante – em termos de estrutura – que Saint Exupéry faz com O Pequeno Príncipe. O problema é que falta um pouco mais de sutileza. Ele narra os acontecimentos e pontua suas observações. Uma mescla de liberdade não liberal: essas inserções freiam a narrativa. Ou o leitor se preocupa com a personagem ou com as inquietações do autor.


O texto, apesar da fluência, de permitir o fluxo da leitura de maneira interrupta, deixa a desejar na descrição mais detalhadas das cenas. As inquietações, ideias, preconceitos e questionamentos da personagem são o palco do livro. Não há uma preocupação com o cenário literário: o que está em jogo é o discurso da busca de um eu perdido.


É um monólogo sem ser monólogo. É um texto que se ampara mais nas ideias e conceitos carregados pela mente da personagem – e às vezes do autor. Seria mais adequado o “floreamento” das cenas, a oportunidade de recheá-las de mínimos detalhes, apenas dando a deixa para o leitor imaginar.


Entretanto é uma obra original, criativa. Oferece ao leitor um emaranhado de situações e provações da personagem. Embute, em suas palavras, um ambiente fantasioso, onde as cidades, rios, pedras e árvores surgem do nada. As personagens secundárias, com seu amor, seu ódio, sua hipocrisia, enfim, seu jeito humano-literários de ser, surgem à deriva na história, enroscadas com as cidades da qual integram o cenário. São servas das cidades. Ou melhor, peças que surgem no horizonte ficcional, ilustradas de forma a oferecerem caminhos e perspectivas para Moço, uma personagem em busca de suas verdades. Que talvez não existam e ficam Nada Além de suas inquietações.

Para baixar o livro: NADA ALÉM

domingo, 8 de agosto de 2010

A linha tênue entre ficção e realidade


Num cenário literário, onde as palavras são tecidas para encantar e seduzir, é comum surgir, no meio do caminho, uma pedra, ou melhor: um fio: aquele que é divide a ficção da realidade. A trama literária, com seus recursos de descrição de cena a cena, diálogos, exposição de pontos de vista, metáforas e por aí adiante, oferece um terreno fértil para que ocorra esse choque entre o que realmente é verdade e o que é imaginação.

E isso é bom em certos aspectos: o texto ficcional, de tão bem detalhado, se transforma em algo real na cabeça de muitas pessoas. É como se tudo aquilo realmente tivesse existido. O problema é quando esse “algo real” entra em choque com a moral e os bons costumes de uma sociedade.

Lolita, do russo Vladimir Nabokov (1899 – 1977), traz a história de um quarentão que se apaixona por uma menina de doze anos: uma ninfeta em suas palavras. É narrado em primeira pessoa, rico em detalhes e observações da personagem que, para ficar próxima da “sua ninfeta”, casa-se com a mãe dela e ajuda na morte acidental da mesma. Finge ser o pai, para viverem, ao menos entre quatro paredes, como marido e mulher.

Devido à temática do livro, ou seja, a pedofilia, o livro se tornou uma das obras literárias mais escandalosas do século 20. Gerou especulações biográficas sobre o escritor, debates quentes e produziu abundante material jornalístico no mundo todo. Forjou, enfim, uma aura de escritor degenerado para Nabokov. O que não é verdade: Nabokov apenas criou uma ficção, belíssima no modo como segue a narrativa, destrinchando a alma de um pedófilo e o deixando nu, nos mais íntimos detalhes. É um clássico.

Puxando o assunto para o campo da televisão, eis que o impacto é maior, devido à influência que a telinha possui – está em quase 100% dos lares brasileiros. Há quem se solidarizou com os sofrimentos de Luciana, da novela Viver a Vida, que ficou paraplégica. Muitos entravam em seu blog, feito com relatos ficcionais, e deixavam mensagens do tipo: “Oi Lu!! Quero que saiba que tenho uma filha de dois anos. O nome dela é Clara. Ela está aprendendo a orar. Todas as vezes em que vai dormir, ela pede ao Papai do Céu, para você ficar boa. Parabéns, você é um exemplo!”.

A pergunta que faço: até que ponto deve-se tomar cuidado para escrever, com medo que ficção e realidade sejam confundidos? A ficção existe justamente para criar uma interrogação, gerar expectativas, confundir. E é ai que reside toda sua graça: o choque é necessário nesse mundo onde o real já é uma grande perturbação. Ela surge para criar o caos onde reina a tranquilidade. É, por fim, um puxão de orelha válido para refletir.

Juliano Schiavo é escritor, jornalista e estudante de ciências biológicas
Blog: www.julianoschiavo.blogspot.com
E-mail: jssjuliano@yahoo.com.br

sábado, 31 de julho de 2010

O que realmente vale a pena?

Há momentos em que nos questionamos sobre o que realmente vale a pena nesta vida tão cheia de reviravoltas, perdas e ganhos. Não importa a idade, as questões surgem naturalmente e vivem a se digladiar em nossas cabeças. Qual caminho tomar? O que realmente queremos? Vale a pena todo o esforço para atingir nossa satisfação pessoal? Questiono-me diariamente meus passos. Reflito sobre os caminhos a seguir. E a qual conclusão chego?

Longe de querer dar conselhos. Não é essa minha praia. Quero apenas deixar algumas palavras aqui, meio dispersas, colocadas de forma a tentar gerar uma pequena reflexão. Outro dia, de forma meio carrancuda, me perguntaram se realmente valia a pena investir na edição de um livro. Sorri, quebrando o ar carrancudo da pessoa que me perguntou.

Apenas respondi que o que valia a pena não era o investimento na publicação em si. Mas a satisfação pessoal. O prazer de alcançar uma pequena meta, por mais diminuta que fosse. E foi isso que senti. Se contabilizasse toda a dor de cabeça pela publicação, toda correria para divulgação, todos os pormenores de se lançar um livro, todo o investimento monetário, abaixaria a cabeça. Não sairia do lugar. Enfim, me entregaria ao nada, me apagaria aos poucos. E se apagar aos poucos é morrer aos poucos.

Há certas rupturas nesta vida que nos fazem enxergar o mundo de outra forma. Perdi minha tia há menos de um ano. Fiquei com aquela sensação de estar sem chão. Seu sorriso, suas brincadeiras e seus beijos, sempre tão carinhosos, não podem ser mais sentidos. Tudo ficou em minha memória como as boas recordações que jamais me esquecerei.

Meu cachorro, Zequinha, não mais me espera no portão como costumeiramente fazia. Partiu, dormindo, para não mais sofrer pelas agruras de um tumor. Há pouco tempo, um conhecido também deixou a Terra mais vazia. Jovem, guerreiro, inteligente. Jornalista que começara a subir na vida justamente agora. Apenas 26 anos, com um amor pela vida que dava gosto. E num acidente de trânsito, eis que sua vida foi ceifada.

Nestes momentos, a dor é latente. A sensação de que a vida é um fio, um caminho que se entrelaça num nó chamado apagar. Não é fácil absorver tudo o que acontece. É um impacto muito forte, que bambeia as pernas. Ficamos sem ação, sem ar para respirar. E é aí que me questiono: o que vale a pena? Pelo o que realmente devemos lutar? Por que deixar de seguir com sonhos, se podemos lutar ao máximo para realizá-los?

É a partir destes impactos que os nossos verdadeiros questionamentos surgem. E é por eles que devemos aprender que a vida é uma caminhada, com vários caminhos. Uns bons, outros nem tanto, mas todos com surpresas. Basta apenas lutar pelo o realmente vale a pena. Não é fácil, mas também não é impossível.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Só para não dizer que não falei de reencontros...

Foi num domingo. O telefone tocou, era meu pai. Atendi.
- Filho, um amigo seu está indo aí te visitar.
- Quem é?
- O Emídio.
No mesmo instante, a campainha tocou. Olhei pela sacada e lá estava ele. Sorri e disse para ele me esperar que eu estava descendo.
Abri o portão. Ele não acreditou quando me reviu. Seus olhos brilhavam, marejados de emoção. Tinha os cabelos bem brancos, meio ralos. O mesmo olhar de bondade que eu conheci quando tinha meus 8, 9, 10 anos de idade.
- Juliano, é você? Lembra de mim?
- Sim. É o Emídio! Lembro sim! Você levava seu filho jogar bola no campo!
- Ah, aposto que seu pai ligou e te disse.
- Sim, ele ligou. Mas eu lembro de você sim. Você levava seu filho, o Philipe, jogar bola no campo.
Ele me abraçou. Chorou. Disse que jamais me reconheceria na rua.
Minha tia saiu na sacada. Ele levantou os olhos marejados e, enquanto enxugava as lágrimas, falava com ela:
- Não acredito! Sou emotivo demais tia! Estou emocionado em rever meu amigo Juliano.
E me abraçou novamente. Convidei-o para entrar, mas disse-me estava só de passagem.

Naquele domingo eu me senti estranhamente feliz. Talvez por notar que sou querido, mesmo que tenha perdido o contato a tanto tempo. Sorri com o riso daqueles que se sentem gratos por esses pequenos momentos de emoção. A vida é um caminho, um longo caminho, que muitas vezes se perde, mas também se cruza.

domingo, 18 de julho de 2010