sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Americana: uma cidade cinza



Há 30 anos nasci e me criei em Americana-SP. Lembro-me que, quando criança, encontrava sapos na rua. Era quase toda noite que um deles surgia, coaxando e fugindo de um cachorro ou de alguma criança. Aprendi com minha mãe a pegá-los e soltá-los no mato, pois eles eram importantes para comer insetos e aranhas. Hoje, faz anos que não vejo um sapo em minha rua. Os sapos se foram.

Lembro-me também que, em diversas ruas, árvores frutíferas vez ou outra animavam meu dia. Aprendi a gostar de jambo quando o experimentei pela primeira vez, na Rua Anhanguera. Havia um jambeiro próximo à linha férrea. Eu subia no muro e apanhava alguns jambos, cujos frutos tinham um perfume de rosas. Hoje, esse jambeiro não existe mais, assim como tantas outras árvores que fizeram parte de minha infância.

Outra constatação: naquela época, ao subir pelo Viaduto Centenário, o que eu via era uma cidade com alguns prédios. A igreja Matriz se destacava ali, em meio a casas e comércios. A cidade passava a sensação de ser aberta, crescer horizontalmente, com suspiro. Hoje, os prédios rasgam os céus de Americana, impendido, muitas vezes, de observarmos o pôr do sol.

Não sou saudosista, até por que não tenho tendência a dizer “no meu tempo era melhor”. O meu tempo é agora. E o que me assusta é que pouco tenho visto Americana avançar na questão ambiental. Falta política pública, falta vontade política, falta, inclusive, educação ambiental das pessoas.

Quando falo de sapos, penso no que eles perderam de espaço para sobreviver. Sem os sapos, por exemplo, aumenta-se o número de insetos. E por inseto, podemos citar alguns nocivos, como os mosquitos transmissores de diversas doenças, como febre-amarela.

Quando falo de ausência árvores, penso no quanto as ruas estão nuas, sem o verde a adornar as calçadas. Perde-se também abrigos e alimentação para aves, morcegos e insetos. O pouco que resta de verde é esquecido: Gruta Dainese, margens do ribeirão Quilombo... Tem mais? E quando falo de prédios, eu me pergunto: até quando o crescimento vertical vai ser sustentável, pois a cidade não tem outros recursos hídricos e fica cada vez mais adensada, com um fluxo de veículos cada vez maior

O que temo é que Americana se transforme num grande bloco de concreto, sem verde e sem o mínimo de qualidade ambiental. É preciso preservar e recuperar o pouco que resta. E, acima de tudo, pensar na cidade como um grande organismo vivo. Qual o nosso papel frente a isso? Qual a nossa responsabilidade ambiental? O que temos feito para mudar essa realidade cinza?


Juliano Schiavo é jornalista, escritor, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente



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