sábado, 14 de julho de 2018

Precisamos falar sobre depressão



Após disponibilizar o download gratuito do meu livro Aprendendo com a Depressão, por cinco dias, no site da Amazon, uma das coisas que mais me chamou atenção foi o número elevado de downloads. E olha que apenas coloquei o link em minha página pessoal e em cerca de cinco grupos com a temática de depressão. Foram 295 downloads, praticamente sem divulgar.

A mesma coisa acontece com meu livro impresso. Sem me esforçar, vez ou outra, alguém me procura querendo adquirir um exemplar. Só um escritor sabe o quanto é difícil que os leitores adquiram a sua obra e, nesse caso, ao abordar o tema depressão, quase não tenho tido "esforços" para divulgar a obra. Ela se divulga por si só.

E isso me acendeu um alerta: há uma grande procura pelo tema, o que por um lado é bom, mas pelo outro me faz pensar que ainda é preciso abordar a questão. As pessoas procuram saber cada vez mais o que é a depressão e seus impactos. Detalhe: embora tenha tido um número elevado de downloads do livro, percebi que, nas postagens que fiz, houve poucos "curtir" ou "reações" na postagem.

Isso me leva a um segundo alerta: há uma procura, mas as pessoas sentem certo receio de falar abertamente sobre a depressão. É preciso desmistificar o assunto. #Depressão não é frescura, não é falta de Deus, não é falta do que fazer. Depressão é #doença e precisa ser tratada.

Quanto mais falarmos sobre essa doença para desmistificá-la, vamos aos poucos rompendo o tabu sobre o tema. É preciso falar sobre depressão e sempre lembrar que se trata de uma doença e que é preciso sim procurar ajuda quando se é afetado por ela.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo
Americana - SP

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Para quem tiver interesse, o livro link do livro na Amazon caso queira adquirir o exemplar impresso, ainda tenho disponível (logo logo acabam os exemplares, aproveite rsrs). O preço do livro está R$ 20 + frete. Qualquer coisa, só me enviar mensagem: jssjuliano@yahoo.com.br


domingo, 22 de abril de 2018

Sobre os NÃOS que temos que falar




Numa sociedade que preza pelas pessoas indestrutíveis e que necessitam estar de prontidão para agradar e abraçar o mundo, uma das palavras mais difíceis de se dizer é o NÃO. Confesso que é que um aprendizado diário usar essa palavra com maestria, pois dá-se a impressão que fomos forjados para sempre dizer sim. Afinal, agradar o outro é importante: nunca sabemos o dia de amanhã. E ao dizer um sonoro NÃO, muitas vezes, nos sentimos culpados.

Culpados por pensar que temos que agradar a todos, a todo custo, mesmo que isso nos custe o bem mais valioso: nosso bem-estar. Quantas e quantas vezes dizemos sim, mesmo sabendo que, em nosso âmago, a vontade é dizer um sonoro NÃO?

Queremos passar a imagem de que conseguimos dar conta do mundo, das obrigações. Abraçamos pedidos, como quem está num deserto com sede e se vê diante de um copo, sem se importar se, nele, há apenas água pura, ou se ela está salobra. Bebemos e, muitas vezes, nosso organismo adoece. A sede em agradar foi maior do que a necessidade de preservar nossa integridade física e mental.

É muito difícil aprender a dizer NÃO. É uma sensação dolorosa, muitas vezes, aprender a se colocar em primeiro lugar. Afinal, não queremos arranhar amizades, parcerias e relações. E dizer um NÃO pode ser mal interpretado por quem o recebe. Mas é certo nos sacrificarmos?

Quando não há possibilidades e não há caminhos. Quando não se sente parte de algo e quando não se quer mais insistir em alguma situação que não faz bem: dizer a palavra NÃO é fundamental. É essencial para o bem-estar físico e mental, pois a mente somatiza doenças. Portanto, aprender a dizer a palavra NÃO é um aprendizado diário e necessário. Representa, acima de tudo, aprender nossas próprias limitações e vontades. Vale a pena dizer NÃO.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor, biólogo e Mestre em Agricultura e Ambiente


sábado, 14 de abril de 2018

O trânsito de Americana




Quando falamos no trânsito em Americana, falamos de algo muito comum em cidades que nunca foram planejadas para comportar o tráfego atual. A cidade é fruto de uma história, uma cultura, uma construção social e, portanto, traz raízes desde sua fundação. Não podia ser diferente: quem imaginava, há 100 anos, que haveria na cidade 174 mil veículos? Não é à toa que as ruas são estreitas e, em alguns bairros, ao se estacionar carros dos dois lados de uma via com mão dupla é impossível transitar. São marcas do passado que refletem no presente.

Recentemente, Americana passou por mudanças em seu trânsito, com alteração do sentido de direção das ruas. De certa forma, elas trouxeram uma maior mobilidade. Adaptou-se uma espécie de sistema binário, em que uma rua tem um sentido e a outra o sentido contrário. Antes, era preciso andar três quadras para poder retornar e estas alterações facilitaram a vida dos motoristas.

O problema que se instaura não é mudança em si, mas sim a falta de planejamento na implantação das alterações. Lembro-me muito bem que, no sábado (24/02), quando alteraram o sentido das ruas, não havia placas indicativas de alteração em pontos cruciais e, muito menos, a presença agentes de trânsito para orientar. Não deu outra: houve acidentes.

O mesmo problema ocorre quando vai ser feita uma obra: começam a executá-la, mas sem pensar e indicar caminhos alternativos para quem transita naquela via. Ou ainda, não colocam sinalização para informar que, naquele local, há uma mudança. Esperam pelo pior acontecer. Foi a mesma coisa quando recapearam as ruas que dão acesso ao viaduto Abdo Najar: foi feita uma obra necessária, mas os sinais de trânsito, como os Pares, não foram indicados por dias e mais dias.

Se a proposta da Unidade de Trânsito e Sistema Viário é melhorar a mobilidade e pensar na segurança dos motoristas, a segunda proposta não tem sido bem executada. Não seria o momento de repensar as ações, de forma a priorizar a segurança também?  

Juliano Schiavo é jornalista, escritor, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente
www.julianoschiavo.wix.com/livros

sábado, 24 de março de 2018

Quem está ao seu lado?





Há pessoas que gostam de nós. Outras, não. Há quem nos incentive. Outros, destacam nossa pior faceta e apontam falhas, sem se importar se, da forma como falam, vão nos machucar. Para eles não importa o construir, mas o esfacelar. Há pessoas que nos usam para subir: somos apenas ferramentas para o objetivo delas, que não nos incluem. Há quem nos estenda a mão para que possamos subir um degrau. Outros, nos empurram escada abaixo.

E nessa jornada feita de um suspiro, a vida, vamos aos poucos conhecendo aqueles que se dizem amigos, mas só nos incluem quando precisam de algo, sem oferecer nada em troca. Há ainda aqueles que, nos momentos ruins, estão ali e, nos melhores momentos, comemoram nosso sucesso, sem ter a inveja a nublar o olhar. Amigo que é amigo não está apenas no momento da queda, está também dividindo nossa felicidade.

E se posso dar um pequeno conselho, a escolha de quem trilha o caminho ao nosso lado é apenas nossa. Não vale a pena prolongar conversas com quem não nos quer incluir. É direito do outro também não nos incluir. Afinal, não somos o centro do universo. O erro é nosso em insistir. Quem muito mendiga atenção, colhe apenas migalhas. É certo? Cada um sabe o que lhe convém. Muito embora, acredito que ninguém seja merecedor de migalhas de atenção. Sempre há alguém que pode somar conosco, basta que estejamos abertos a conhecer e reconhecer outras pessoas.

Você já parou para pensar nas amizades ao seu redor e como você as tem cultivado? Já parou para olhar dentro de si e observar quem lhe faz bem e quem apenas lhe inclui por mero comodismo e interesse? A vida é muito curta para estar ao lado de quem não soma, ensina e troca experiências. E a escolha é apenas nossa. Quem merece caminhar ao nosso lado?

Juliano Schiavo é jornalista, escritor, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente.

  

sexta-feira, 9 de março de 2018

Juliano Schiavo lança livro com reflexões e orientações sobre a depressão



Livro Aprendendo com a Depressão será lançado no sábado (17/03), no CCL, em Americana

No sábado (17/03), das 17h às 21h, ocorre o lançamento do livro Aprendendo com a Depressão: Reflexões, Depoimentos e Orientações Sobre a Doença Considerada o Mal do Século XXI. O livro, com 208 páginas e valor de R$20, é uma produção independente do escritor, jornalista, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente, Juliano Schiavo. O lançamento ocorrerá no CCL (Centro de Cultura e Lazer) de Americana, na Av. Brasil, 1293 – Pq. Res. Nardini e conta com apoio da Secretaria de Cultura e Turismo.

Aprendendo com a Depressão traz uma série de reflexões do autor, além de orientações de 30 especialistas, como psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, filósofos, sociólogos, entre outros profissionais e 19 depoimentos de quem teve e se curou da depressão, uma doença que atinge mais de 322 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O livro versa sobre diversos assuntos, como a importância da alimentação, atividades físicas, o uso da arte, a importância da fé, dos pensamentos positivos, o papel das redes sociais, a aceitação de si próprio, entre outros tópicos, os quais buscam trazer uma mensagem de esperança, mostrando que o mais importante é persistir na luta contra a doença.

 “Só quem teve ou tem depressão sabe o quando ela afeta completamente a vida, fazendo com que se perca o prazer de viver. A partir de uma experiência pessoal, escrevi o livro, que não é um manual de cura, mas sim uma série de reflexões e colaborações. Além disso, é de suma importância que as pessoas com depressão procurem auxílio e tratamento com profissionais da área de saúde”, disse Schiavo.

O livro pode ser adquirido no dia do lançamento pelo valor de R$20 ou diretamente com o autor – frete não incluso – pelo e-mail:  jssjuliano@yahoo.com.br  ou telefone (19) 34619513. Também é possível adquirir o livro em formato virtual na Amazon <https://www.amazon.com.br/dp/B07BB6VVX9>

LANÇAMENTO – Durante o lançamento da obra, o escritor cedeu o espaço para que artistas, escritores e artesãos pudessem utilizar o espaço. A abertura do evento, que tem entrada gratuita, será feita pela contadora de histórias, Alyssa Tomiyama, do projeto Alyssa e a Magia da Leitura. Ocorrerá em seguida shows musicais de Matheus Bars (18h), Felipe Gabriel (19h) e 3G Trio (20h). Também haverá exposições de Laura Muller, Eder Modanez, Eduardo Mestriner, Ivan Lúcio Ferreira, Marcelo Henrique e Ray Anny e Cia.

O espaço contará ainda com artesanato de Ateliê Caminhos de Pontinhos; Cadernos artesanais de Lua Modanez; Canecaterapia; Faixa turbante de Ivone Vidal; e Los Cactus - Plantas suculentas. Haverá, ainda, na área de literatura, os trabalhos de Angela Maria Tavares, Eder Modanez, Fagner Zanetti, Katya Forti e da Revista Kyrial (revista literária), além da venda de livros infantis.

O AUTOR - Juliano Schiavo é jornalista, com pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente. É escritor e um dos organizadores da Flaam (Feira Literária e Artística de Americana). Já ministrou palestras sobre como publicar um livro e oficinas de escrita criativa. Atualmente, é professor de Ciências (Ensino Fundamental II) e também de Comunicação e Expressão do curso de formação profissional com ênfase em empreendedorismo e inovação da Copersucar.

Programação
Palco
17h - Início
17h10 - Abertura com Alyssa e a Magia da Leitura
18h - Matheus Bars (música)
19h -Felipe Gabriel (música)
20h - 3G Trio (música)

Exposições e oficinas
Dores e delícias de ser pessoa com deficiência - Laura Muller
Arte da Depressão: Processo de criação de uma capa de livro  - Eder Modanez
Rostos e Restos - Eduardo Mestriner
Galeria de Retratos - Marcelo Henrique
Oficina de mandalas - Ray Anny e Cia
Sou Frida e não me Kahlo – Ivan Lúcio Ferreira

Artesanato
Ateliê Caminhos de Pontinhos - Costura Criativa - Patrícia Azevedo
Cadernos artesanais - Lua Modanez
Canecaterapia - Julia Wagner
Faixa turbante / acessórios  para cabelo - Ivone Vidal
Los cactus - Plantas suculentas - Luciano Delmondes

Literatura
Angela Maria Tavares
Eder Modanez
Fagner Zanetti
Katya Forti
Revista Kyrial (revista literária)
Venda de livros infantis

SERVIÇO
Lançamento do livro Aprendendo com a Depressão, de Juliano Schiavo
Sábado (17/03), das 17h às 21h
Local: CCL (Centro de Cultura e Lazer) de Americana
Av. Brasil, 1293 – Pq. Res. Nardini
O evento tem entrada franca ao público
O valor do livro é de R$ 20,00




segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Miragens da vida facebookiana





Quando fico diante das redes sociais, sei que ali há um grande espetáculo. Espetáculo esse que é criado, pensado e compartilhado por cada um dos amigos virtuais. Há sempre aquele que é o “politizado”, “o estou certo”, “o viajado” e por aí vai. Cada um, a sua maneira, dá a cor e a história em sua rede social, sendo, portanto, um editor de sua própria vida virtual.

Numa conversa com alguns amigos, eles comentaram que viam a vida de muitos “dar certo”, “repleta de sucesso”, enquanto eles próprios pareciam não sair do lugar. Perguntei como chegaram a essa conclusão. Me disseram que apenas viram pelo Facebook.

Eu apenas ri. Ri por saber que, em se tratando de redes sociais, é muito fácil se criar ilusões. Ali há a família perfeita, o casal que se ama eternamente, a pessoa cult. Você encontra o sábio, o engraçado, o poeta, a personificação da moral e dos bons costumes. Tem de tudo. Mas nada deixa de ser fruto de uma grande edição: as pessoas, assim como na vida real, colocam ali apenas a imagem que querem passar. Isso pode não ser a realidade, apenas uma representação.

Tenho certo receio com o que vejo:  sempre há uma intenção por trás de cada mensagem. Há ali uma grande edição, uma escolha pensada sobre o que entra e o que não entra. Na vida real, as coisas podem não ser necessariamente assim. Já vi gente ser a “barraqueira do Facebook”, mas não tomar nenhuma atitude para transformar o mundo num lugar um pouco melhor. Se reclamar mudasse as coisas, acho que estaríamos num outro patamar.

Por isso, quando pensar que sua vida não é um “sucesso”, lembre-se: a postagem do seu amigo virtual pode ser apenas uma grande fantasia. Na foto, o melhor sorriso. Mas no interior, pode ser que as coisas não sejam bem assim. Sucesso não é postar. É viver e aprender com a vida.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Americana: uma cidade cinza



Há 30 anos nasci e me criei em Americana-SP. Lembro-me que, quando criança, encontrava sapos na rua. Era quase toda noite que um deles surgia, coaxando e fugindo de um cachorro ou de alguma criança. Aprendi com minha mãe a pegá-los e soltá-los no mato, pois eles eram importantes para comer insetos e aranhas. Hoje, faz anos que não vejo um sapo em minha rua. Os sapos se foram.

Lembro-me também que, em diversas ruas, árvores frutíferas vez ou outra animavam meu dia. Aprendi a gostar de jambo quando o experimentei pela primeira vez, na Rua Anhanguera. Havia um jambeiro próximo à linha férrea. Eu subia no muro e apanhava alguns jambos, cujos frutos tinham um perfume de rosas. Hoje, esse jambeiro não existe mais, assim como tantas outras árvores que fizeram parte de minha infância.

Outra constatação: naquela época, ao subir pelo Viaduto Centenário, o que eu via era uma cidade com alguns prédios. A igreja Matriz se destacava ali, em meio a casas e comércios. A cidade passava a sensação de ser aberta, crescer horizontalmente, com suspiro. Hoje, os prédios rasgam os céus de Americana, impendido, muitas vezes, de observarmos o pôr do sol.

Não sou saudosista, até por que não tenho tendência a dizer “no meu tempo era melhor”. O meu tempo é agora. E o que me assusta é que pouco tenho visto Americana avançar na questão ambiental. Falta política pública, falta vontade política, falta, inclusive, educação ambiental das pessoas.

Quando falo de sapos, penso no que eles perderam de espaço para sobreviver. Sem os sapos, por exemplo, aumenta-se o número de insetos. E por inseto, podemos citar alguns nocivos, como os mosquitos transmissores de diversas doenças, como febre-amarela.

Quando falo de ausência árvores, penso no quanto as ruas estão nuas, sem o verde a adornar as calçadas. Perde-se também abrigos e alimentação para aves, morcegos e insetos. O pouco que resta de verde é esquecido: Gruta Dainese, margens do ribeirão Quilombo... Tem mais? E quando falo de prédios, eu me pergunto: até quando o crescimento vertical vai ser sustentável, pois a cidade não tem outros recursos hídricos e fica cada vez mais adensada, com um fluxo de veículos cada vez maior

O que temo é que Americana se transforme num grande bloco de concreto, sem verde e sem o mínimo de qualidade ambiental. É preciso preservar e recuperar o pouco que resta. E, acima de tudo, pensar na cidade como um grande organismo vivo. Qual o nosso papel frente a isso? Qual a nossa responsabilidade ambiental? O que temos feito para mudar essa realidade cinza?


Juliano Schiavo é jornalista, escritor, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente



sábado, 3 de fevereiro de 2018

O Brasil que eu quero




“Olá, meu nome é Gabriela eu sou de Guarapuava, Paraná. E estou falando da praia de Itapoá, Santa Catarina. O Brasil que eu quero melhor é o mar sem sal. Eu quero pedir aos governantes que tirem o sal do mar. No resto tá tudo ótimo, obrigada”. Essa frase, proferida pela tal Gabriela, se tornou meme. Por meme se compreende um fenômeno em que uma informação se espalha rapidamente, ganhando popularidade. 

Quando me peguei vendo o vídeo, confesso que ri muito. E ele ficou em minha cabeça, ecoando. Não pelas risadas, mas por refletir sobre a ironia de Gabriela. É mais fácil tirar todo o sal do mar – que convenhamos, para mim também seria melhor, pois não gosto do sal – do que simplesmente ter um País em que a lei não tenha dois pesos e duas medidas. É mais fácil transformar toda a água marítima em doce, do que frear essa onda de ódio e intolerância que vem varrendo nosso País.

Ao pensar a respeito do pedido de Gabriela, eu compreendo a ironia. As facilidades nos métodos da dessalinização são inúmeras. Porém parece não haver possibilidades de extinguir a corrupção, o racismo, o preconceito. Parece não haver caminho para colocar mulheres e homens no mesmo patamar de direitos. Parece que este País se transforma, a cada dia, num local mais intolerante, em que só se respeita quem se pensa igual ou sustenta o mesmo cabresto. 

E embora seja mais fácil transformar a água salgada em doce, frente a todos os problemas por termos uma sociedade doente, ainda acredito que pequenas ações podem fazer a diferença. Quando você quer mudar a realidade para melhor, é muito simples: basta respeitar o outro; tolerar as diferenças; cobrar os direitos e cumprir os deveres. E acima de tudo, ter empatia. Já pensou que legal seria se todos se colocassem no lugar do outro antes de tomar algumas atitudes? 

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo.
www.julianoschiavo.wix.com/livros
Americana - SP



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O senhor das moscas


Esses dias li O Senhor das Moscas, de William Golding. O livro traz a história de garotos, presos a uma ilha deserta após a queda de um avião. Um deles, Ralph, é escolhido por unanimidade para liderar o grupo e, com isso, tentar trazer alguma ordem em meio ao caos. Ralph tem um espírito democrático: é aberto, escuta as pessoas, busca ser o mais justo possível, em meio às adversidades.

Outro garoto é Porquinho, uma criança muito metódica, que analisa a situação e fala o que, muitos, não têm coragem de dizer. Ele traz fatos que ninguém quer encarar e, por isso, incomoda. Ralph, sempre que possível, o escuta. Por ter espírito democrático e por entender que há posições que devem ser tomadas. Porquinho é como se fosse a ciência, a razão. Ele pensa e analisa o que é viável e o que é possível – e por isso incomoda, pois não há soluções mágicas.

E, para contrabalancear a história, há Jack: um garoto que quer ascender ao poder, pela imposição da força, apenas pela necessidade de mandar e fazer o que bem entender. Tem posições demagógicas, frias, desumanas. Jack traz soluções mágicas, para situações que não têm solução. Sabe articular seus seguidores pelo ódio que espalha e pelo medo que cria. Jamais ouve Porquinho, o garoto que traz fatos. Tem ódio de Ralph, a criança que luta, inclusive, pelas minorias, não buscando privilégios a estes, mas equidade.


Ao terminar de ler o livro, tracei um paralelo de tudo o que tem acontecido no Brasil e senti muito receio pelo que está por vir em 2018. Tenho medo de um líder emergir pelo ódio. Tenho medo sim, por saber que muitas atrocidades são cometidas pelo silêncio e cumplicidade da maioria. Se você busca o bem, como optar por aqueles que não respeitam o outro? Tenho pena de quem não enxerga o mal que cultiva. Falta esclarecimento. 


Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O que te move?


A vida tem me ensinado que, quando queremos ver algo acontecer, não adianta apenas termos idealizações ou sonhos. Sonhar é preciso, porém, para materializar o que se deseja, é fundamental movimentar o universo com ações. E transformar a realidade depende, necessariamente, da nossa vontade, possibilidades e das ferramentas que temos ao nosso redor.  Inclusive, parar de reclamar de tudo e de todos.

Materializar sonhos não é algo fácil. Demanda tempo, energia, vontade, canseira, suor. Você se desdobra para cultivar sementes que podem germinar com plantas diferentes das que almejava. Porém o importante, sob todos os pontos de vista, é cultivar algo. Pode ser que as sementes não deem necessariamente a maçã que se idealizava. Porém o importante foi plantar e começar a transformar a realidade com o pouco que se tinha.

É preciso preparar a terra e semear para iniciar o germinar; regar diariamente; limpar o canteiro das ervas daninhas que, vez ou outra, surgem para nos desmotivar; adubar; e, por fim, sempre zelar pelo cultivo até alcançar o fruto. Há plantas que demoram anos para florescer. Outras, são rápidas e têm sua importância para nos alegrar nos intercursos da vida.

Nesta trajetória, vira e mexe, pego-me a pensar sobre quais são meus anseios. Não é algo fácil, até porque pensar na vida exige certo desconforto: é preciso mudar algumas coisas para sair da zona de conforto; arriscar novos caminhos para observar o mundo com outro olhar; aceitar o que não se pode mudar; e entender que há pessoas que somam, outras que nada agregam e outras que apenas querem prejudicar. Frente a essas percepções, eu me pergunto: quais os sonhos que lhe movem? Até que ponto você movimenta o universo para realizá-los?  E você tem realmente acreditado no que deseja?

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo
julianoschiavo.wix.com/livros

Americana - SP

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Tá faltando fio de bigode


Qual o valor de suas palavras? De que forma elas se materializam, ou não? Qual o peso que você dá a suas promessas? Elas se transformam em realidade, ou ficam apenas no “vou fazer”? Essas e outras perguntas são sempre muito importantes de serem feitas todos os dias para nos lembrar: de que forma projetamos a pessoa que somos ao mundo? De que maneira buscamos melhorar a realidade que nos cerca cumprindo com o que nos propusemos a fazer?

Isso porque, nesses tempos novamente sombrios que vivemos, tem-se a sensação de que existe um enfraquecimento do poder da palavra:  as promessas parecem não valer. E o que isso implica? Em uma sensação de que é difícil confiar no outro.

A vida me ensinou que é preferível receber um sonoro não a ouvir promessas vazias. E também é necessário dizer um não, quando realmente não existe possibilidade de se cumprir algo. Não precisamos de encantadores, que tudo prometem e nada cumprem. O que precisamos é novamente honrar o “fio do bigode”, ou seja, uma expressão surgida há muito tempo que consistia em honrar a palavra dada com um fio do próprio bigode. Assim, o que se dizia, valia muito mais do que qualquer contrato escrito. Está faltando isso.

Confiança é algo difícil de se criar. Mas muito fácil de se esfacelar. Pessoas que tudo prometem, que manipulam o outro, que brincam com as palavras para conseguir algo e, depois de tudo isso, nada cumprem, estão apenas mostrando a verdadeira face oculta: são aproveitadores. E hora ou outra a verdade sempre bate à porta. A pergunta que deixo no ar: quem perde com isso?

Nesse mundo cada vez mais tomado por pensamentos nebulosos e que beiram o doentio, nada mais sensato do que honrar as palavras. Afinal, como tentar mudar nossa realidade se nem as promessas cumprimos? É algo a se pensar.


Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo
Americana - SP



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Uma reflexão sobre a maturidade


O tempo é o senhor das verdades e mestre em revelar as faces: você só aprecia bem as cores de um quadro e os detalhes quando você o observa de perto. Pessoas são assim: você as conhece pela convivência.

Nessa jornada, única, o aprendizado é forjado pelo tempo, pelas interações sociais e pelas situações. E aprendizado só se torna útil quando conseguimos tomar as decisões com sabedoria: admitir erros, perdoar e reconhecer que há coisas que podemos mudar (para melhor) e outras que não temos como modificar (e aceitar é o caminho mais sensato). Isso se chama maturidade.

A maturidade, por sua vez, representa ter sabedoria de analisar as situações, entender as limitações e aventar as possibilidades: o que realmente nos move? O que nos preenche de coisas boas? De que forma estamos agindo para mudar o nosso eu e, inclusive, mudar o nosso redor para melhor?  Estamos nos importando com o nosso verdadeiro bem-estar, ou nos acomodamos numa vida “mais ou menos”?

Nesses questionamentos, muitas vezes trombamos com situações ou pessoas que não nos fazem bem. Insistimos em manter contato, ou continuar vivenciando situações que já sabemos: não vão vingar. É como plantar sementes em terras áridas. De lá, nada germinará. Vale a pena insistir em relações em que é preciso “mendigar” atenção? Estamos sendo honestos com nós mesmos ao continuarmos num emprego ou curso que nos deixa infelizes? É necessário manter “amizades” que sabemos serem só por interesse?

A maturidade surge como a melhor ferramenta: é ela quem vai permitir olharmos para dentro e para fora. Analisar o que nos cerca e o que nos falta. Refletir sobre as nossas capacidades, dificuldades e possibilidades. A partir dela, podemos fazer escolhas mais sensatas. A questão que devemos sempre fazer: estamos sendo maturos ou imaturos?

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

Americana – SP.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sobre as formas de se dizer algo


Se as vírgulas podem mudar o sentido de uma frase, imagine então o poder das palavras. E por mais que estas não sejam feitas de matéria física, elas têm uma força e tanto. Podem nos alegrar, entristecer, enraivecer, nos convencer. Elas dão formas ao nosso modo de pensar e ajudam a traduzir nossas ideias e visões. Palavras ao vento podem se transformar em tufões ou em brisas. Depende apenas da forma que são proferidas.

Nesses encontros e desencontros que é a vida, é comum esbarrarmos com as mais diferentes pessoas. E confesso: admiro aquelas que sabem usar as palavras de uma forma que dizem tudo o que querem, da forma mais honesta possível, sem ofender. Sem medo, dizem o que pensam, mesmo que seja oposto ao que pensamos. Mas dá gostou ouvir, pois elas sabem falar, de forma a não te ofender por pensar diferente. Pessoas assim, admiro. Elas se posicionam e não ficam em muros.

Confesso também que tenho certo pé atrás com aqueles que querem se passar por autênticos e, para tanto, usam as palavras da forma que bem entendem. Não se preocupam com o teor da mensagem. Apenas querem se posicionar, mostrar que “não tem medo de dizer o que pensam”. Eu vejo de outra forma: elas simplesmente são grossas. E o pior: parecem sentir orgulho de serem pessoas sem um pingo de educação e sentem prazer em “humilhar” o ouvinte.

Ser autêntico não significa ser grosseiro. Existem as mais diferentes formas de se falar algo, sem machucar o outro com palavras. Autenticidade não é sinônimo de grosseria. Mas grosseria é sinônimo de burrice: de não entender que a forma como se fala pode magoar, desnecessariamente. Quem vive com pedras na mão é quem não sabe se amar e se aceitar. Pode dizer que se ama, mas é da boca para fora. Quem se ama verdadeiramente, não precisa humilhar os outros para se sentir bem.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

Americana – SP.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Grafites, velas e tsurus


O que antes era um muro cheio de cor, obra grafitada pelo artista americanense Leonardo Smania, hoje é um muro opaco. De uma arte repleta de significados, estampando uma mulher negra, sorrindo, sobraram apenas memórias e registros fotográficos.

Mesmo atrasado ao manifesto marcado nesta terça (11/07), às 19h, levei, junto de minha mãe, uma dobradura diante do muro. Lá, ardiam velas como forma de protesto pelo apagamento do grafite. Deixamos ali, um tsuru, que representa, segundo as lendas japonesas, uma ave símbolo da boa sorte, felicidade e longevidade. No caso do grafite que ali residia, uma longevidade que não existiu. A arte retratada naquele muro, de uma mulher negra, estudante da APAE, foi efêmera demais.

A arte, tal como as velas, é uma fagulha da criatividade humana. Ilumina os caminhos, pois busca, no fundo de cada um, a essência. A arte, assim como a calor das velas muito próximo da pele, incomoda, pois é de sua natureza incomodar. A arte serve para mostrar, propor, cutucar, fazer refletir. A arte é assim. A arte incomoda. A arte é um tapa na cara. Ela permite pensar além do nosso mundo tão reduzido. Ela é uma troca.

Talvez por incomodar demais, a arte que ali residia teve um fim tão rápido. Repousa sobre uma camada de tinta creme. Não teve a longevidade de um tsuru, mas sim a rapidez de uma vela a queimar. O que fica de tudo isso? A certeza de que trazer cores, num mundo cada vez mais cinza, é uma luta. Mas não devemos jamais desistir.

Enquanto uns cortam flores, há os que plantam sementes. E fazem isso muito bem. É preciso, sempre, semear. Para que um dia – mesmo que efêmeras – as flores possam fazer alguém ser tocado de uma maneira que, sem essas cores, jamais seria tocado. Que a arte continue viva e que os artistas jamais deixem a esperança ser perdida, mesmo diante da falta de apoio que existe. Que o coração e alma falem mais alto do que racionalidade fria daqueles que só querem apagar as “cores” de todas as expressões artísticas.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

sábado, 8 de julho de 2017

Odiar é fácil



Odiar é fácil. Trata-se de um sentimento que parece estar no âmago humano, tamanha facilidade de surgir. Odeia-se o que que não se compreende, o diferente, aquilo que não agrada. Este sentimento parece caminhar conosco. Talvez isso explique o motivo do mundo ser como é. O ódio é gratuito: é uma violência direcionada àquilo que não nos convém.

O discurso de ódio cativa, pois ele cria inimigos a serem combatidos. Ele edifica um sistema maniqueísta e de fácil entendimento, pois ele divide tudo em apenas duas opções: bem ou mal. O ódio reduz tudo a opções fáceis de serem entendidas, assimiladas e possibilita escolhas rápidas: está comigo, ou não está; sim ou não; azul ou vermelho. O ódio é, por natureza, reducionista. E por ter uma natureza tão pequena, faz com que quem o cultive se torne parte do que ele é. Somos aquilo que fazemos e sentimos. Portanto, sentir ódio nos torna odiosos.

Amar, pelo contrário, é o sentimento mais difícil de gestar. Amar implica em ser tolerante. Em entender que o mundo não se divide apenas em bem e mal. O mundo é uma soma: nem tudo que é mal, é mal em tudo. O amor permite ver gradações nas cores. Ele permite o talvez. Amar permite entender que todos nós somos limitados, diferentes e com formas únicas de ser. Amar permite o respeito e o afeto. Amar é difícil, pois nos força a pensar e a se colocar no lugar do outro. Amar é um esforço de ter empatia.

Por isso, quando me perguntam qual o meu palpite para os rumos de nossa sociedade – e observando a facilidade com que o discurso de ódio se alastra – eu me assusto. Me amedronto com a facilidade com que as ideias intolerantes são abraçadas. Torço, ainda, para que as pessoas se permitam ir além do ódio e tentem se colocar no lugar do outro, pois falta empatia. Será que o ódio vencerá?

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

Americana - SP

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O “lado bom” de estar desempregado



Sou parte de um contingente formado por cerca de 14 milhões de pessoas. Um número que representa uma parcela significativa de um País que esteve sempre em crise: econômica, política e moral. Sou parte de uma sociedade de desempregados, que tenta se encaixar. Mais do que isso: tentamos se sentir com alguma função social. Confesso: está difícil.

Não entrando na questão da usurpação dos direitos trabalhistas que fomos vítimas, trago aqui uma pequena reflexão sobre o “lado bom” de estar desempregado. Fiquei um tempo pensativo, pois tempo é o que mais temos quando estamos sem patrão.

Estar desempregado me ensinou várias formas de cadastrar um currículo. São sites diferentes, para preencher os mesmos dados. E quando o site trava na metade preenchimento? É a forma de aprendermos a ter perseverança, pois somos brasileiros e não desistimos.  Também aprendi que as dinâmicas das empresas só cobram para que sejamos bons nas dinâmicas – e não necessariamente bons profissionais.

Percebi que o mercado de trabalho é bipolar. As empresas querem dar espaço aos estagiários, desde que eles já tenham ampla experiência. Querem também profissionais especializados, porém quanto mais títulos, menos chances de ser contratado por ser um profissional muito qualificado – e assim, ter que pagar maior salário.

Ficamos, inclusive, experts em participar de concursos públicos – mesmo sabendo que são cadastro de reserva, os quais não chamarão ninguém e servem apenas para angariar fundos com as inscrições. Mas tentamos tudo, não é?

Estar desempregado me ensinou que a crise é brava. Que ter diploma não é garantia de emprego. E que as únicas coisas que fazem que continuemos a caminhada são as pessoas que estão ao nosso lado e a fé que as coisas vão melhorar. Pois bem, continuemos tentando.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo
Americana - SP

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Os vampiros da vida real




Neste mundo de caminhos que se perdem e se cruzam, nada mais natural do que conhecermos pessoas que são passageiras. Surgem em nossas vidas feito lufadas de ar e, tal qual o aparecimento, desaparecem. Seguem o fluxo delas, caminham em lados opostos, se tornam meras lembranças.

E isso se evidencia neste mundo com novas conformações. Muitos, por exemplo, têm uma vida pendular: estudam numa cidade, moram em outra, trabalham numa terceira. Estão sempre em trânsito, conhecendo novas pessoas e cruzando caminhos. São pessoas que surgem em nossas vidas (por acaso ou destino) e nos mudam de alguma forma. Seja para vermos nossos maiores defeitos ou partilharmos momentos. Mas cada um, a sua maneira, com seu jeito de ver o mundo, nos conecta a novas experiências.

Porém, há pessoas que não querem entender que existem aquelas que são passageiras. Que surgiram por algum motivo, mas que decidiram, pelas circunstâncias, ou mera vontade, não ter mais contato. Existem pessoas que, por uma obsessão doentia, com o auxílio das redes sociais, continuam a vampirizar aquele que não quer mais partilhar momentos. Insistem na ideia de querer se aproximar, quando não existe mais história a ser partilhada: a vida seguiu seu curso.

É preciso entender que a outra pessoa simplesmente não quer mais contato. É um direito dela. Ela quer seguir com a vida. Não que tudo o que tenha acontecido não a tenha marcado. A questão é que não faz mais parte do presente dela. É preciso respeitar decisões. Pessoas não são posses. E por mais queridas que elas nos sejam, não temos o direito de nos apropriar delas. Elas têm o direito de se afastar. E cada um tem o dever de respeitar decisões pessoais, mesmo que sejam doloridas. O melhor remédio? O tempo, a reflexão e o respeito às decisões alheias.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

Americana - SP

terça-feira, 6 de junho de 2017

Não deu certo



Quando me deparei com a notícia de que estudantes da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo-RS, promoveram a festa temática “Se nada der certo”, pensei que era brincadeira. Muitos dos jovens estavam fantasiados de faxineiro, mecânico, vendedores de lojas, ambulantes e outras profissões que, na ótica dos alunos, seria a última saída na vida de alguém em que nada deu certo.

Fiquei um tempo refletindo. Primeiro, por saber que aqueles jovens, a quem muitos xingaram de vagabundos, burguesinhos, e uma série de adjetivos que não posso aqui escrever, apenas refletiam o pensamento enraizado em nossa cultura. Eles, de certa forma, apenas repetiram o que sempre ouviram, mesmo sem entender o que significava.

Vivemos numa sociedade de castas invisíveis, que enxerga as pessoas sob este prisma: quem deu certo e quem não deu. Quem se enquadra e quem é diferente. Quem merece respeito e quem deve ser invisível. Somos frutos desta sociedade doente, que sempre busca tipificar, categorizar e rotular as pessoas como objetos. Uma sociedade que não vê o valor do caráter, mas o preço da individualidade e do seu padrão aceitável.

Também fiquei abismado por esta “festa” ter ocorrido numa escola. E o pior: numa instituição ligada à religião. A nota de esclarecimento da instituição: “Atividades como essa auxiliam na sensibilização dos alunos quanto a conscientização da importância de pensar alternativas no caso de não sucesso no vestibular”. Sensibilizar em prol do preconceito? Seria isso?

Fico com receio de como as coisas estão caminhando. Os valores do respeito, da empatia, do entender o próximo se perderam em discursos discriminatórios, em palavras de ódio, em segregações que se apoiam em preconceitos. Qual o preço que pagaremos por continuarmos a insistir em pensamentos preconceituosos de quem dá e quem não dá certo? Uma sociedade assim, com certeza, não deu.


Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

Americana - SP

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Indignai-vos! E vamos agir



Nestes tempos conturbados, que são de um fluxo que parece não cessar, fico me perguntando como se desdobrarão os caminhos. Vivemos uma crise que extrapola a financeira: é moral e parece estar enraizada, de tal forma, como uma erva daninha que cortamos as folhas, mas ela mantém os tubérculos esperando as condições para brotar.  Até quando permitiremos isso?

Li há algum tempo li um manifesto chamado Indignai-vos, escrito pelo alemão Stéphane Hessel. Neste texto, ele conclamava todos a se indignarem contra uma série de acontecimentos que afetavam as liberdades individuais e a democracia. Para Hessel, na indignação reside a luta ou a resistência contra sistemas opressores.

Mais do que se indignar, acho que não podemos simplesmente deixar de movimentar o universo. Passo após passo, devemos fazer o nosso melhor para tentar modificar pequenas ações que, amplificadas, tornam nosso País reduto de ódio, corrupção e falta de perspectiva. E como podemos fazer mudanças? Talvez elas estejam em nossas mãos, esperando apenas uma corrente do bem se iniciar.

E quando falo nessa corrente, me refiro a ter mais respeito com a vida alheia. É preciso entender que nem todos tiveram a mesma oportunidade e, felizmente, são diferentes na forma de pensar. Para muitos de nós, falta uma dose cavalar de empatia, falta se colocar no lugar do outro. Falta estender as mãos em pequenas atitudes: não jogar lixo no chão, não estacionar em lugares inapropriados, não ficar com o troco dado errado, enfim, pequenas ações, mas que ecoam de uma forma negativa. Permita-se ser corrupto e não poderá cobrar retidão dos outros.

Sinto falta do senso de comunidade, de união. Estamos cada vez mais fragmentados por essa sociedade doente, que só pensa no eu, no lucro acima de tudo. Cadê o nós? Cadê a doação de cada um para transformar esta onda nefasta em algo melhor? Já paramos para pensar que estamos o tempo todo atirando pedras, mas nos esquecemos que podemos ser nós mesmos os maiores hipócritas?

É tempo de se indignar. É tempo de agir e mudar atitudes. É tempo de se colocar no lugar do outro e fazer o melhor para mudar essa realidade que está fazendo nossas perspectivas ruírem. Não merecemos um mundo desfragmento. É hora de construir algo melhor, mesmo que em pequenos passos. Qual será nossa ação diária para isso?

Juliano Schiavo é jornalista, escritor, biólogo e mestre em Agricultura e Ambiente

Americana - SP