terça-feira, 11 de julho de 2017

Grafites, velas e tsurus


O que antes era um muro cheio de cor, obra grafitada pelo artista americanense Leonardo Smania, hoje é um muro opaco. De uma arte repleta de significados, estampando uma mulher negra, sorrindo, sobraram apenas memórias e registros fotográficos.

Mesmo atrasado ao manifesto marcado nesta terça (11/07), às 19h, levei, junto de minha mãe, uma dobradura diante do muro. Lá, ardiam velas como forma de protesto pelo apagamento do grafite. Deixamos ali, um tsuru, que representa, segundo as lendas japonesas, uma ave símbolo da boa sorte, felicidade e longevidade. No caso do grafite que ali residia, uma longevidade que não existiu. A arte retratada naquele muro, de uma mulher negra, estudante da APAE, foi efêmera demais.

A arte, tal como as velas, é uma fagulha da criatividade humana. Ilumina os caminhos, pois busca, no fundo de cada um, a essência. A arte, assim como a calor das velas muito próximo da pele, incomoda, pois é de sua natureza incomodar. A arte serve para mostrar, propor, cutucar, fazer refletir. A arte é assim. A arte incomoda. A arte é um tapa na cara. Ela permite pensar além do nosso mundo tão reduzido. Ela é uma troca.

Talvez por incomodar demais, a arte que ali residia teve um fim tão rápido. Repousa sobre uma camada de tinta creme. Não teve a longevidade de um tsuru, mas sim a rapidez de uma vela a queimar. O que fica de tudo isso? A certeza de que trazer cores, num mundo cada vez mais cinza, é uma luta. Mas não devemos jamais desistir.

Enquanto uns cortam flores, há os que plantam sementes. E fazem isso muito bem. É preciso, sempre, semear. Para que um dia – mesmo que efêmeras – as flores possam fazer alguém ser tocado de uma maneira que, sem essas cores, jamais seria tocado. Que a arte continue viva e que os artistas jamais deixem a esperança ser perdida, mesmo diante da falta de apoio que existe. Que o coração e alma falem mais alto do que racionalidade fria daqueles que só querem apagar as “cores” de todas as expressões artísticas.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e biólogo

Um comentário:

  1. Você está de parabéns seu texto é maravilhoso e infelizmente retrata a realidade não só de nossa cidade como também a de nosso pais, por se dizer um país "livre" sem preconceitos infelizmente ainda existe pessoas com mentes fechadas,vazias e apagadas igual se encontra esse muro nesse momento. Muito triste o ocorrido mas era algo que quase todos quase sempre tem certeza que acontecerá infelizmente.
    Seu texto é maravilhoso parabens.

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