domingo, 22 de maio de 2016

Sobre a legalidade do amor





Outro dia, caminhando pelas ruas da cidade de Americana, me deparei com a frase “Legalize o amor” pichada num muro. Pode ser algo banal, uma frase perdida em meio a diversas paredes coloridas. Mas não. Era uma frase forte, impactante. A ponto de me fazer refletir. A que ponto chegamos no qual seria necessário legalizar o amor? Sempre pensei que este fosse um sentimento livre e que deveria ser cultivado no âmago dos corações. Algo puro, sincero. Sem restrições.

Mas talvez a frase escondesse algo a mais. Uma cutucada no transeunte que batesse os olhos e se pegasse a lê-la. Sim. Talvez realmente seja necessário legalizar o amor. Principalmente em tempos obscuros, em que as pessoas não se enxergam, apenas se encaram. Em um momento em que o respeito cede lugar à intolerância. Em que as pessoas não veem o outro como um semelhante que é diferente. Mas como um diferente que não lhe é semelhante.

Há quem pregue amor acima de tudo, que fale de bondade, da necessidade de haver paz. Porém suas palavras são como sepulcros caiados. Belas por fora, pútridas por dentro. Pois falam por falar. Não agem. Se limitam a frases de amor ao próximo, a orações que apenas ecoam como um monótono disco enroscado. E quando encontram alguém, que lhe é diferente, não sabem respeitar.

É preciso desconfiar de quem prega amor e, em seus atos, traz nítida a marca da intolerância, do desrespeito, da não aceitação do diferente. Desconfie desta pessoa. Mas entenda que ela é limitada. Não entende que amar, acima de tudo, é respeitar o que lhe é diferente. Amar o igual é fácil. Difícil é reconhecer que todos têm variações. Mais complicado ainda é aprender a respeitar o que não é semelhante.

Em tempos de intolerância, talvez o pichador esteja – infelizmente – certo. Talvez seja necessário legislar para permitir o amor. Assim como é necessário legislar para proibir o preconceito, a discriminação e tantas outras questões que, se observássemos bem, não seria necessário criar leis se houvesse apenas uma única coisa entre as pessoas: o respeito.



Juliano Schiavo
Jornalista, biólogo e escritor

Americana-SP

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