sábado, 14 de abril de 2012

Reflexão sobre a sobrevivência


Quando criança, fechava os olhos e me tornava invisível. Eu tinha essa estranha capacidade de desaparecer apenas com os olhos cerrados – e isso me dava uma vantagem sobre as outras crianças que comigo brincavam de esconde-esconde. Perdi este superpoder. Só lembro-me dele vagamente.

Também tinha a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, com eles, criar histórias, entre o bem e o mal, o justo e o errado, o certo e o duvidoso. Essa capacidade caminhou triste para uma escuridão. Foi suprimida por um tom cada vez mais cinza, que se perdeu num ostracismo interior.

O medo do escuro, sempre presente em momentos em que o silêncio imperava, era um dos meus maiores obstáculos de brincar à noite no quintal de casa. Ali, entre os galhos de acerola ou do cajuzeiro, existia uma estranha entidade que poderia estar ávida para me capturar. Ela foi engolida, tragada por si mesma. E desapareceu como se eu tivesse acendido uma luz.

É estranha a sensação de que certas coisas, por mais diminutas e – aos olhos dos outros, idiotas – se percam. Não é que a inocência cega, ela apenas nos faz enxergar tudo de outra perspectiva. Talvez menos maliciosa e menos perversa do que a perspectiva atual.

Hoje, quando fecho os olhos, sei que é o momento de dormir para repor energias para o dia seguinte, para a rotina cheia de repetições que dão a leve sensação de nunca serem iguais, mas no fundo serem as mesmas.

Quando dou vida a objetos inanimados, não é uma vida repleta de simbolismos. É uma vida maquinal, fria. É o computador que trava e que recebe uns bons xingamentos. É o celular que acaba o crédito e me revela, numa voz gravada, irônica e feliz, que meus créditos acabaram e que eu devo recarregar.

Também não sinto mais medo do escuro e de suas estranhas formas, suas sombras a brincarem com a imaginação. Sinto medo das formas humanas que se projetam entre as esquinas, não sei se mal intencionadas. Sinto medo da violência, não só restrita à escuridão, mas à luz do dia.

Hoje, muitas vezes sinto que parte de mim morreu. Não por que quis sepultá-la, mas por que foi necessário fazê-la. As concepções de uma infância se foram. Restaram apenas uma casca vazia. Não que tenha me tornado frio, longe disso. Apenas tive que me adaptar uma realidade que me sufoca, que tenta me enquadrar em modelos ideais, que nada são ideais. São apenas estilos, criados para que possamos nos adaptar e sobreviver.

Só os mais aptos sobrevivem, é o que Darwin diria. Eu ainda acho que ele errou: só os que sonham sobrevivem. Porém, não o sonho forjado para o sucesso profissional. Sobrevivem apenas os que sonham com dias melhores, com um mundo onde é possível cerrar os olhos e ficar invisível, dar vida a objetos inanimados e, por fim, ter medo do escuro simplesmente por imaginar monstros – e saber que eles não existem.

Juliano Schiavo é jornalista, escritor e estudante de ciências biológicas
www.julianoschiavo.blogspot.com

3 comentários:

  1. A pior parte da vida é abandonar a inocência de ser criança porque o mundo muda rapidamente. E se você não se adaptar, vai ficar esquecido num canto qualquer.

    O mundo adulto é um porre. Felizes são as crianças que ainda têm a inocência para criar aventuras e não precisam encarar uma realidade muitas vezes ruim.

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  2. Me fez lembrar de um trecho da Lya Luft:

    O pensamento se desenrola como um tapete para trás no tempo: retorno às primeiras sensações, primeiros anos, primeiros contatos. Qual a mais remota lembrança?
    Vendo alguns retratos de quando eu era bebê no colo de pai ou mãe penso lembrar cheiros, o contato da pele, a força dos braços. Mas pode ser ilusão.-Talvez a memória mais antiga seja aquela, aos dois anos, pouco mais. Calor, verão, só de calçãozinho curto. Deitada no assoalho de tábuas claras enceradas.
    Frescor de madeira contra pernas e peito. Espio embaixo de um móvel.
    Sempre aquela tentação de procurar o escondido. O desejo da surpresa e o desinteresse pelo evidente demais. Poeira e sombra. Movimento rápido, vento num rolo de poeira e fios. Vou descobrir, vou entender, vou tocar aquilo que se move e ali me chama. Algo cintila no escuro: um caco de vidro, um tesouro... um olho me espiando? Eu sei, tenho certeza de que não é apenas um novelo de poeira e fios: está vivo e será meu.
    Mas quando o estou quase alcançando, chegam os passos rápidos da mãe onipresente, e o encanto se desfaz:
    - Levanta daí, vai se sujar de novo, você acabou de tomar banho!
    Eu queria a mãe sempre por perto com seu rosto e sua atenção, mas também queria que me deixasse fazer em paz as minhas coisas. E eu estava sempre tentando, havia sempre uma surpresa à espera como um pacote num papel especial: vem, vem, vem me desembrulhar.
    Às vezes sou dócil e atendo à ordem da mãe. Muitas vezes resisto, grito e esperneio, eu quero, eu quero! Eu quero ficar assim, quieta, quase alcançando.
    Para aquela menina nada seria apenas sujeira embaixo de um móvel, mas um aceno, uma presença e uma voz.

    É isso aí, muito bacana o posto.

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  3. Me fez lembrar um trecho da lya Luft:

    O pensamento se desenrola como um tapete para trás no tempo: retorno às primeiras sensações, primeiros anos, primeiros contatos. Qual a mais remota lembrança?
    Vendo alguns retratos de quando eu era bebê no colo de pai ou mãe penso lembrar cheiros, o contato da pele, a força dos braços. Mas pode ser ilusão.-Talvez a memória mais antiga seja aquela, aos dois anos, pouco mais. Calor, verão, só de calçãozinho curto. Deitada no assoalho de tábuas claras enceradas.
    Frescor de madeira contra pernas e peito. Espio embaixo de um móvel.
    Sempre aquela tentação de procurar o escondido. O desejo da surpresa e o desinteresse pelo evidente demais. Poeira e sombra. Movimento rápido, vento num rolo de poeira e fios. Vou descobrir, vou entender, vou tocar aquilo que se move e ali me chama. Algo cintila no escuro: um caco de vidro, um tesouro... um olho me espiando? Eu sei, tenho certeza de que não é apenas um novelo de poeira e fios: está vivo e será meu.
    Mas quando o estou quase alcançando, chegam os passos rápidos da mãe onipresente, e o encanto se desfaz:
    - Levanta daí, vai se sujar de novo, você acabou de tomar banho!
    Eu queria a mãe sempre por perto com seu rosto e sua atenção, mas também queria que me deixasse fazer em paz as minhas coisas. E eu estava sempre tentando, havia sempre uma surpresa à espera como um pacote num papel especial: vem, vem, vem me desembrulhar.
    Às vezes sou dócil e atendo à ordem da mãe. Muitas vezes resisto, grito e esperneio, eu quero, eu quero! Eu quero ficar assim, quieta, quase alcançando.
    Para aquela menina nada seria apenas sujeira embaixo de um móvel, mas um aceno, uma presença e uma voz.

    É isso aí, valeu pelo post.

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