terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Falando em nuvens


A chuva cai leve e sorrateira. O céu, com uma cor cinza, é adornado por nuvens em forma de algodão doce. Um leve vento passa, faz com que os galhos das árvores bailem lentamente, feito braços verdes mexendo-se ao sabor de uma música. Música feita pelo barulho da chuva, que se choca com a grama, com os telhados marrons, com o asfalto cinza-azulado, com a calçada de basalto, com a guarda-chuva que guarda a pessoa da chuva. Mais um dia. Assim como tantos outros, que se revezam numa brincadeira climática.

Há dias em que se abre a janela, o sol percorre cada canto com sua luz, deixa o céu com seu azul límpido. Límpido, mas também adornado com nuvens espaçadas, rabiscadas no quadro azul, sempre dançando ao sabor do vento. Nuvens. Sempre as nuvens presentes. E o que me leva a descrevê-las? Talvez sua força metafórica: somos, muitas vezes, guiados por nuvens, que causam um enevoamento em nossos olhos, um embaciamento da visão.

Na correria diária, entre o acordar, tomar café da manhã, escovar os dentes, se banhar, preparar para o dia que nasce, eis que começam a surgir, mesmo que sem querer, algumas nuvens que embaçam nossa visão. São os problemas, as tarefas não concluídas, o estresse de dirigir num trânsito cada vez mais caótico, o barulho da televisão ligada, os celulares tocando com seus diferentes toques, uma profusão de barulhos e mistura de sentidos. Que captam nosso tempo, embaçam nossa visão, surrupiam nossa capacidade de refletir.

As nuvens, esse embaciamento visual, nos impedem de olhar para o horizonte tal como ele é. Ludibriam, parecem brincar com nossos sentidos. Nos desorientam, nos fazem perder o norte, o fio condutor. Os problemas, sempre marteladores em nossas cabeças, criam falsos juízos, respostas conflituosas, desorientação nos passos a serem dados. É quase impossível enxergar por entre as nuvens que surgem diante de nossos olhos. E sempre me pergunto: como espairecer esses problemas, libertar a visão dessas névoas esbranquiçadas e sempre limitadoras?

Por mais que não tenha encontrado a resposta definitiva – gostaria de saber quem a tivesse – aos poucos fui percebendo que, para tentar se livrar desse mal súbito que se espreita em nossos olhares, a melhor alternativa é tentar atravessar essa barreira limitadora. Lutar contra os problemas, enfrentar os medos, tentar ir além do conforto que criamos ao nosso redor. As nuvens surgem pois criamos redomas de proteção, que acabam por se embaçar com nossa respiração – muitas vezes ofegante. Não é uma tarefa fácil, mas ao menos é um pequeno passo, em busca de um desanuviamento visual. A reflexão é um caminho interessante, bem-vindo, que requer força de vontade.


Juliano Schiavo, jornalista, escritor e estudante de ciências biológicas
www.julianoschiavo.blogspot.com

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