sábado, 30 de outubro de 2010

Resenha - Barro, areia, óleo de baleia


Numa narrativa rápida, quase telegráfica, eis que é edificado Barro, Areia, Óleo de Baleia, de Leandro Leite Leocadio (120 páginas). O livro, de 21 contos, tem como argamassa uma escrita rápida, permeada de pontos para o suspiro e, quiçá, uma breve reflexão sobre certos aspectos de nossa sociedade dissolvida em areia: corrupção, traição, doenças, fetiches, insanidade e tantas outras imperfeições que a fazem única.

Para dar liga, com seu óleo de baleia, eis que surge um humor leve, muitas vezes ácido, mas nunca apagado: Leocadio extrai do barro o riso, ou seja, faz da palavra um conjunto de frases, que se mesclam num texto bem acabado, rápido, suspirado. Traz a madame chique, famosa pelo 171, a enganar o marido. Revela o insano que, por criar em seu corpo a berne e expurgá-la em mosca, a chama de filha. Não contente, Leocadio faz de um copo de arroz cru a fartura de uma família a beira da morte nutricional.

Nos contos há histórias diversas: um beijo desejado, a comemoração de bodas de guimba (bituca de cigarro), um corpo seco a se esgueirar pelos cantos obscuros. Há ainda lembranças de uma infância, onde uma mãe vive a martelar na cabeça do filho que o frio mata – mas não é exatamente ele que o leva ao fim. Nos contos também é permitido a um poeta escrever sua gênesis. Ou, semelhança a realidade, uma pessoa que nada sabe, parecer que tudo sabe. E subir na vida.

Com apresentação do escritor Moacyr Scliar, Barro, Areia, Óleo de Baleia é um livro de contos com uma tipografia leve, bem escolhida. Sua diagramação explora o branco nas páginas, dá a sensação de respiração, de brisa marítima. Combina com a capa, em tons de areia, possivelmente de um mar. Mar de criatividade, sensibilidade e bom gosto em revelar microcontos que, mesmo sendo micro, são densos e poéticos. É, por fim, um livro bonito, com uma estética agradável, indicado para ler em doses homeopáticas para relaxar.

O autor - Leandro Leite Leocadio (Rio de Janeiro, 20 de março de 1975) é um poeta, contista, ilustrador e cartunista brasileiro. Expôs seus cartuns por duas vezes no Centro Cultural São Paulo (1995 e 1997). Escreveu para a revista Bundas e para o jornal O Pasquim 21 (2001/2004), ambos editados pelo escritor e cartunista Ziraldo. Foi um dos autores convidados para a oficina da FLIP em 2007 e 2009 e como palestrante para a OFF FLIP (2006, 2007 e 2009).

É o autor do livro Os desmandamentos (2007) e um dos autores da antologia M(ai)S, organizada pelo professor da USP Antonio Vicente Pietroforte e pelo poeta Glauco Mattoso (2008). Também coordena, em diversas instituições, cursos e oficinas de criação literária para autores com obra ainda em formação. É membro e um dos idealizadores do coletivo poético Os Maletras, onde escritores fazem, de forma despojada e irreverente, uma leitura dramática de seus textos e de outros, clássicos e contemporâneos.

Contato pelo e-mail: leandroleiteleocadio@hotmail.com
Mais informações: Os Desmandamentos

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