terça-feira, 13 de julho de 2010

p 37-39


Dei um grito abafado, sem forças, pois a voz não queria sair de minha garganta. Meu corpo, dolorido, não tinha espaço para se mexer e, nas minhas narinas, pedaços de algodão impediam minha respiração. Ao meu redor, plantas encobriam meu corpo e minhas mãos estavam dispostas junto ao peito. Não havia luz, brisa, espaço: o lugar era apertado, fechado, quente, abafado. Com muito custo e dor, consegui levantar minhas mãos e bati numa tampa fixa. As juntas do meu braço latejavam sem força e todo meu corpo ardia, como se flâmulas me consumissem por dentro. Tirei os algodões do meu nariz e puxei o ar. Um cheiro de crisântemos tomou conta de mim. Em estado de temor, arregalei meus olhos e, no meio da escuridão, conseguia enxergar, com dificuldade, as pontas dos meus pés, que agora se projetavam como vultos. Fechei os olhos e permaneci em silêncio, tentando entender tudo aquilo. Meu coração palpitava cada vez mais forte e sentia sede, uma sede descomunal, mas não era por água, nem outro líquido. Não sabia o que era. Voltei meus olhares ao redor. Um tapete de flores brancas recobria-me e, como se tudo fosse claro, extremamente claro, minhas pupilas podiam entender a escuridão que me consumia. Eu estava num caixão. Meu corpo, antes morto, agora estava vivo. E uma fobia tomou conta de mim. Aquele caixão me asfixiava, me dava náuseas, medo, aflição. As paredes pareciam cada vez mais comprimidas, apertadas, assustadoras. Descontrolei-me e comecei a me debater. Arranhava a tampa de madeira, dava chutes, gritava, me espancava. Minhas unhas deslizavam vorazmente pela tampa seca, repleta de ranhuras e pequenas farpas se soltavam, machucando minha carne. Um cheiro de sangue, tão excitante, se volatizava dentro da urna funerária e deixava-me em estado de delírio. Gritei com todas as forças, mas ninguém me ouvia, ninguém vinha me ajudar, ninguém sabia que meu corpo vivia em morte. A solidão era a única voz ao meu lado, sussurrando, brincando de me assustar. Chorei. Sentia as lágrimas escorrendo por meu rosto, os soluços infantis e medrosos ecoando pelo caixão. O vazio, a tristeza e a agonia tomavam forma e, aos poucos, se transmutavam em mariposas cinzentas, que começavam uma revoada em meu estômago, buscando a liberdade. Tentei me encolher em decúbito dorsal, mas o caixão me impedia. Entrei novamente em pânico e esmurrava a tampa, as laterais e tudo ao redor, em estado de fúria, medo e angústia. Sem entender muito bem o que acontecia, uma força sobre-humana tomou forma em meus músculos e, finalmente, consegui quebrar a tampa do caixão. Coloquei minha cabeça pela fresta e vi que estava numa gaveta funerária, possivelmente, na da minha família. Com a estranha força, consegui quebrar o caixão e empurrei a tampa de concreto que ficava na porta de minha gaveta. Arrastei-me, deixando rastros de sangue devido aos machucados em minhas mãos e finalmente consegui cair num espaço aberto. Lá, coroas e mais coroas de flores amorteceram minha queda e pus-me a chorar. As lágrimas rolavam por minha face e eu me perguntava por que havia feito aquilo e como estavam meus pais. Vi que minhas mãos e os machucados, apesar da dor, estavam se cicatrizando. Mantive-me em silêncio, enquanto lágrimas rolavam por minha face e, assim, adquiri forças e levantei. Olhei na portinhola de bronze que lacrava minha sepultura e vi refletida a luz da lua cheia, tão tênue, bela, que me trazia um instinto animalesco. Arrebentei o portão de bronze e saí do túmulo, caminhando aos tropeções. Meu corpo tinha morrido em vida e nascido em morte. Eu apenas engatinhava para minha nova morte em vida.
Elevei minha cabeça e vi aquela replica de Pietá de Michelangelo, que ficava no túmulo de minha família paterna. Mãe, com o filho morto nos braços, olhando em agonia, dor e desespero. Cerrei meus olhos e lágrimas rolaram. Como estariam meus pais? – perguntei-me novamente. Eles eram a única coisa pela qual tinha consideração. Ao abrir meus olhos, eis que me deparei com o Vampiro que havia ceifado minha vida. Ele estava de pé, ao lado da Virgem, acariciando a face de mármore branco, de mesma tonalidade de sua própria face. Com sua beleza andrógena, me fitou e, com um sorriso diabolicamente encantador, disse-me com sua voz de veludo:
— Agora você é igual a mim.
Antes que eu perguntasse algo, avançou com uma rapidez extraordinária. Envolveu seus braços finos, mas fortes, que me puxaram junto ao seu corpo. Eu podia sentir o coração dele, a respiração, o tilintar das veias sendo irrigadas pela vida vermelha em batidas tão fortes, tão rítmicas, tão sensuais, que meu corpo estremecia de prazer. Um odor de vida brotava-lhe das faces coradas e ele ria, ria, e bailava comigo no chão de basalto branco, iluminado pela lua cheia prateada. Ele sorriu e exibiu seus caninos, alvos e longos, de uma bestialidade inumana, beijou minha testa e disse aos meus ouvidos.
— Beba. Deve estar com fome e eu me saciei por dois.
Ofereceu-me o pulso, como da última vez. Mas ao contrário do que me acontecera na ocasião, assim que toquei meus lábios na pele quente do Vampiro, suguei o sangue vermelho-negro que pulsava com um prazer sem discrição. Minha língua deslizava pelo corte e meu corpo, em riste, roçava todo o corpo andrógino da criatura. Sentia todas as sinuosidades e os cheiros exalados pela fera não-humana. Eu o puxava cada vez mais forte, com ansiedade, tesão, delírio. Queria me fundir ao seu corpo e os gemidos de ambos se confundiam num uníssono de vozes. O sangue, que me deliciava, era o mesmo que fazia sentir a vida percorrendo minhas entranhas e asfixiando as mariposas ansiosas. A vida, em forma de fluído, corava-me a pele pálida e fazia com que eu esquecesse todos os medos que me afligiam. Eu, enfim, podia sentir minha existência brotando em ondas vermelhas, que rebentavam em meus lábios e me alucinavam. Num espasmo, e sem forças para continuar, parei de sugar. Sentia meu corpo irrigado com o bater de meu coração e tudo voltava a se conectar, trazendo-me para a realidade

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