sábado, 24 de abril de 2010

O Silêncio das Mariposas

Estes dias fiz uma última revisão no meu livro "O Silêncio das Mariposas" (book trailer abaixo) que será publicado pela Editora Multifoco (RJ). No total, 216 páginas, sem valor ainda definido. Vamos ver o que vira.

Bem... Vamos lá. Estou aqui para compartilhar algo que me deixa meio angustiado. Fico feliz em ter um livro publicado e, ao mesmo tempo, tenho medo que as pessoas me julguem pela obra que criei. Não que não tenha qualidade. Me empenhei da melhor maneira para criar a história de uma personagem sem nome e sem sexo, que se transforma em vampira e traz relatos e ponderações sobre sua vida. É um texto amparado na sensualidade, no mistério, no drama e, por fim, nas dúvidas reticentes da vida.

O que me angustia? O medo da receptividade da obra. Quando a escrevi entre janeiro e junho de 2009, entrei no mundo obscuro da personagem. Nunca em todo minha vida sofri uma metamorfose tão grande. Pensei como pensaria a personagem. Enxerguei o mundo pelo prisma sociopata dela. Enfim: troquei meu eu e permiti-me a viver um mundo paralelo, fantasioso, angustiado.

O que me rendeu? Fiquei desanimado com vida, com uma leve depressão. Não me suportava mais. Tinha aversão a tudo, uma vontade estranha de me esconder do mundo. Incorporei o modo da personagem de pensar e isso trouxe reflexos em mim. Enquanto não terminei a obra, não descansei. Sentia necessidade de escrever toda a angustia que queimava a personagem e, por consequência, a minha pessoa.

O que obtive? Esse medo da recepção da obra. Em breve ela será impressa e estarei, em minhas mãos, com um texto nascido de uma vontade de criar. Porém uma criação que me fez pensar de uma outra forma e que me causou, enquanto a moldava, certo mal estar. Agora que a criatura foi gestada, ela está para ser parida. E estou aqui, com medo de sua recepção. Com medo de como as pessoas vão me julgar diante do texto que produzi. Do medo de ser encarado como a personagem que criei, quando na verdade apenas cedi meus pensamentos para que ela nascesse e se desenvolvesse.

Aqui está o book trailer dela:



Trecho:


E, num pulo, agarrei-o junto a mim. Era meu, só meu, e de mais ninguém. Apertei o pescoço dele, comprimindo com força até sentir o pomo-de-adão. O coração pulsava acelerado e ele tentava se desvencilhar de meus braços. Em vão. A cada segundo, sem como respirar, se entregava, se submetia às minhas vontades. Caiu de joelhos enquanto eu segurava o pescoço. Soltei-o e foi ao chão, batendo a face de bochechas repletas de manchinhas negras. Segurei os braços dele e o arrastei até a velha cama de casal, envolta por um lençol rosa e com cheiro de mofo. Peguei-o no colo e repousei o corpo adormecido. Caminhei até a porta e trouxe a mulher prenha, colocando-a ao lado do marido desfalecido. Os três estavam sobre meus domínios, inertes, sem reação. Comecei a despir a moça de cabelos encarapinhados. Tirei a camiseta branca e deixei a barriga tesa à mostra. Admirei. Corri os olhos vorazes pelas formas voluptuosas da fêmea prenha e, dragando o cheiro com minhas narinas, conseguia degustar o odor de leite escondido nas mamas. Meus dedos, trêmulos de ansiedade para massagear aquela carne parda, começaram a percorrer a calça jeans surrada, grudada ao corpo toscamente depilado. Desabotoei-a e abri o zíper. A minha vista saltava uma calcinha amarelada, com cheiro de sexo, de fêmea úmida, deliciosamente amedrontada pela situação a que fora submetida. Mordi o pano e, com minhas presas, escorreguei o tecido pelas coxas, deixando a mostra os pelos pubianos, tão mal cortados, que encobriam a vulva. Coloquei minhas mãos nas coxas dela e apertei para sentir toda a carne em vida. Ela estava nua, com a barriga dura, saltada e os seios suculentos, esperando meus lábios. Resisti. E voltei minha atenção a Muriel. Vestia uma camisa surrada, na cor azul clara e uma calça jeans com pequenos rasgos. No pé, um tênis maltrapilho encobria a carne mulata que dava sustentação ao andar. Retirei-o e pus-me a desabotoar, lentamente, cada botão da camisa surrada, até revelar o peito com uma rala penugem masculina. Desabotoei o botão do jeans e abaixei o zíper, expondo uma cueca preta, grudada ao membro adormecido. Com a mão, puxei a calça e, em seguida, a cueca. Peguei as peças íntimas de meus animais e as cheirei. Podia degustar as fragrâncias tão diferentes, macho e fêmea, mas ao mesmo tempo tão iguais, igualadas no fedor da pobreza e dos parcos perfumes dos sabonetes baratos. Eles eram meus, só meus. E eu era a criança mais feliz por ter em suas mãos os brinquedos mais divertidos. Meus bonequinhos. Eu sorria, olhava para os dois seres despidos, nus em pelo, exalando o cheiro do sexo, da fome, do medo, da tensão, da ansiedade, do tesão, da química hormonal, dos barulhos orgânicos, do pulsar do coração, do aspirar do pulmão. Da pobreza da favela eu encontrava ali, naqueles corpos, toda a bruteza humana, toda essência mais pura do que era um ser humano destituído do conforto que o dinheiro podia proporcionar. Na pele parda, fruto do caldeirão cultural, da miscigenação das cores, estava ali a história de toda uma classe envolta no manto da pobreza, alimentada pelo arroz, pela farinha de milho, pela sardinha, pelo feijão, pelo tomate, pelo óleo barato, pelo sal acrescido na água não-potável do alimento. E eu, na ânsia de tê-los, de sentí-los, de degustá-los, me deitei no meio deles. E, com o corpo envolto pelo macho, pela fêmea e pela cria, me protegia num mundo só meu: puro, sem máscaras, sem medo do prazer embalado em dor. Arranquei minhas roupas e deixei que o vento fresco da noite roçasse meus pelos pubianos. Deitei-me nos braços de Muriel e esfreguei minha pele contra a dele, na ânsia de aderir o cheiro da pobreza na minha tez sem máculas. O sexo dele, adormecido, roçava minhas coxas macias. E eu jogava minhas mãos, minha língua, minha face pela extensão daquele corpo bruto, exposto ao deleite de meus olhos. Meu projeto humano, meu deleite. Pousei meus olhos nas bochechas salpicadas de negro e as lambi, deslizando minha língua morna e úmida pelas têmporas, pelas orelhas, pelo queixo, pelos filetes de cabelos faciais. O suor, salgado, com odor ácido, queimava minhas papilas gustativas e eu me entregava ao puro prazer de sentir aquele homem adormecido disposto em minha língua. Virei-me e comecei a esfregar minha boca nas axilas com pelos áspero da fêmea prenha. A transpiração, com sabor levemente sulfúrico, arrepiava meus mamilos e fazia-me contorcer num encantamento único. Abri meus lábios e abocanhei os peitos latejantes, repletos de leite. Desci com a língua pelo vão dos peitos, corri-a pelo canteiro onde se guardava a vida numa bolsa de água e, enfim, repousei no umbigo saltado, arredio, tão pequeno e apertado, feito um botão de margarida. Abri as pernas da fêmea, passeei meu nariz pela vulva e captei toda essência, todo azedume humano, todo odor que se desprendia do sexo febril. Beijei as coxas com pequenas ondulações de celulite e me desgrudei da fêmea. Arregalei meus olhos e pus-me a contemplar a vida embutida na bolsa de água, envolta por pele e placenta, gordura e calor, sangue e oxigênio. Aquela barriga estufada se debatia lentamente. Repousei meus ouvidos nela e pude captar o coraçãozinho acelerado, ouvir as perninhas se mexerem, as mãozinhas chacoalharem o líquido amniótico. Uma vida, uma suculenta vida a caminho do mundo de tristezas. E eu ali, no meio dos três. Macho, fêmea e cria. Pobreza, fedor e prazer. Sentei-me no colo de Muriel e o encarei. Com as coxas em cima dele, inclinei meu corpo alvo sobre a barriga pardacenta, de forma a relar meus seios nos pelos peitorais daquele homem. Abri meus lábios, posicionei minha boca no pescoço, próximo ao pomo-de-adão e, num gesto lento, cravei meus caninos na pele suada e quente daquele que me ensinara, anos antes, o prazer de me sentir indiferente a tudo. Em golfadas demoradas, eu drenava o sangue bruto de um favelado. Sentia um tesão percorrer minha garganta, meu pescoço, meu estômago, minhas entranhas, minhas artérias, meu coração, meu pulmão, meu cérebro, minhas veias, todos meus órgãos, que latejavam unissonamente num prazer de vida em morte. E, num jorro de prazer, gemi feito um animal no cio, sugando vorazmente o líquido vivificante, até restar um sopro de vida. Larguei a carcaça e parti para minha boneca repleta de sabor. Segurei-a em meus braços, acariciei a cabeça com cabelos encarapinhados, ajeitei-a delicadamente e, após massagear os bicos escuros dos seios saltados e duros, brincar com a barriga estufada e com as coxas tensas, roçar as pontas dos dedos nos pelos negros da vulva quente e úmida, cravei meus dentes na pele áspera da axila da fêmea. Minha língua raspava os poros intumescidos e encravados na tez raspada por lâmina. E, em goles cada vez mais fartos, embebedava-me com a vida da minha boneca suja, pobre, desgraçada. O sangue rufava por meu corpo e meu corpo transmutava-se numa montanha repleta de ecos, gritos, gemidos, vozes, sussurros, orgasmos abafados. Eu sentia a mulher, a fêmea, a esposa, a companheira, o objeto sexual, e, agora, conseguia sentir o gosto da mãe. Num silêncio aterrador, enquanto o sangue deslizava macio por minha garganta, a bolsa rompeu e com ela surgiu o aroma de uma nova vida, que emergia do invólucro protetor. Tirei os lábios da axila e voltei minhas atenções à barriga que latejava. Dali sairia a cria, o fruto do sexo, da união cromossômica entre a fêmea e o macho. Contemplei o momento e, com o corpo nu, com o vento leve roçando minhas costas, ajoelhei-me aos pés da cama, abri as pernas da mulher e apertei a barriga, de forma a forçar a vinda da criatura. Nos meus dedos sentia as ondulações, os chutes, a pequena avezinha tentando eclodir o ovo. Não sabia o que fazer, mas pouco me importava. Simplesmente fui forçando a barriga, delicadamente, apertando, comprimindo, ajudando a natureza seguir seu percurso de vida. Olhei a vagina e ela se abria como uma concha. Vi uma cabeça, coloquei uma de minhas mãos abaixo, de forma a segurar com carinho aquele projeto humano. Apertei a barriga. Forcei a natureza a seguir seu percurso natural. E, após alguns minutos, ouvi o choro eclodir pelo barraco de portas com resquícios de tinta azul. Em meus braços, a criança berrava, abria os olhos, dilatava a pupila, enchia o pulmãozinho de ar. Em meus braços, em meus braços... Eu podia sentir a vida nova, o fruto do sexo, o fruto da união cromossômica do macho e da fêmea. Em minhas mãos, em minhas mãos... Eu embalava a cria, ainda com o cordão umbilical, que a prendia na mãe. Em meus lábios, em meus lábios... Eu mordia o cordão da vida, da alimentação. Em minha boca, em minha boca... Eu degustava o sangue, a nova vida. E, após romper a ligação entre um ser e outro, eu, enfim lambia a criança, feito uma fera que limpa a cria. Não resisti e, numa pequena incisão no pescocinho mole, chupei gotículas do mais puro sangue, da mais nova vida, esculpida em uma pele pardacenta, ralos cabelos e olhos esfumaçados. Repousei a criatura entre o pai e a mãe e os admirei com indiferença. O elo entre os dois era aquele pequenino ser, trazido ao mundo para sofrer. Sofrer num mundo de pobreza, de mazelas, de indiferenças, de máscaras. Sofrer para torna-se bruto, em processo contrário ao da lapidação: a pobreza era isso.
Suspirei e, com o corpo satisfeito do sangue dos três, mordi a ponta de meu dedo. Com meu sangue renovador, fechei as feridas abertas de Muriel, da mulher de cabelo encarapinhado e da cria. Sussurrei ao vento:
— Esqueçam-me e sigam seu percurso. A criança é o elo que os une.
Vesti-me com as roupas amassadas e desapareci na escuridão, deixando a porta com resquícios de tinta azul balançando ao sabor do vento. Voltei para casa e me entreguei ao caixão. Lúcio ainda não havia chegado e, dessa forma, adormeci sem o beijo de boa noite.

2 comentários:

  1. Acho que o autor que quer se ver publicado tem que dar mesmo a cara a tapa, Juliano. Entendo o teu medo, acho até normal, só não dá pra virar uma paranoia, né? Tu te dedicou bastante ao livro, e a melhor forma de evoluir é recebendo críticas, mesmo que sejam pesadas/negativas. Não dá pra desanimar por causa disso, não acha? Vou querer ler o livro quando sair, apesar de ser impresso pela malfadada Multifoco... te cuida, abraço!

    Ramiro http://abstraindoarealidade.wordpress.com/

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  2. Acho que esse medo atormenta e atrapalha tudo. Às vezes é preciso nem pensar... nem pensar.

    Apesar do tema "vampiro" só me ter caído bem a Bram Stoker, gostei do trecho aqui.
    Abraço.

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