quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Beduim


Abaixo um dos meus contos. Com essa coisa participei do Mapa Cultural Paulista.

Mais uma noite daquelas! A chuva escorre macia pelas telhas branco-acizentada. O barulho, com seus pingos incessantes e descompassados, deixam a criatura em estado de torpor. Olha aos céus e vê raros e pequenos pontos diminutos, brilhando numa iluminescência azulada. Passa a mão no rosto andrógeno, aproxima-se da janela, abre o vidro. Um vento com cheiro de terra molhada toca a face pálida. Abre as narinas, arregalas as pupilas negras. Na rua, enxerga sua vítima, que marcha com o guarda-chuva de ferros tortos, sem nada desconfiar.

A criatura meneia a cabeça. Vive um dilema. Tem vontade de roçar a língua rosada e úmida nas têmporas da mulher que caminha, sentir o cheiro da pele, do suor, da vida fluindo em batimentos. A criatura andrógena precisa constatar toda essa vida, que excita os impulsos mais animalescos. Mas se vê diante da questão: é justo ter o sangue alheio?

Num suspiro fundo e vazio, a tez alva se arrepia. Os dentes caninos, eriçados, tocam os lábios crispados de tensão. E, num sobressalto, se imagina diante da presa. Com os braços finos, mas fortes, envolve a moça de cabelos encaracolados num abraço apertado. Puxa-a junto ao peito frio, sente seu coração pulsante e, demoradamente, joga os lábios na jugular. Um pequeno beijo, seguido de uma mordida. E, feito isso, ela é dele, só dele, feita para ser degustada num beijo mortal. Mas não pode. Algo o impede. Para de imaginar, volta para a realidade. É justo ter o sangue alheio?

E, num salto, vara pela janela. Cai ao chão de forma leve, macia, e deixa que a água da chuva deslize por seu corpo. É um Vampiro. Sente fome, sede, necessidade de sugar a vida alheia. Num tremelique, segue a moça e capta seu perfume doce, com notas de lírio branco. Ah, que tensão. As narinas se abrem e fecham rapidamente. A boca saliva. E o coração? Bate, bate, bate feito um tambor. A criatura para, observa. Diante de suas pupilas negras, a moça, com seu salto alto Luiz XV se desequilibra

— Desgraça – diz toda charmosa e com biquinho, com o vestidinho minúsculo, bailando junto ao vento. Reequilibra-se e volta a caminhar. Tem pressa. Pressa. Pressa. Olha no relógio. Esboça um sorriso de nervoso. Está atrasada? – pergunta-se o Vampiro. E ela mexe as ancas, para lá e para cá. Segura o guarda-chuva de ferros tortos, equilibra-se no salto, e entra num beco escuro. O Vampiro treme de nervoso. Passa a língua na boca e geme baixinho:

— Ah, Beduim...

E parte atrás da moça. Esconde-se nas sombras, se camufla no breu, pois todo Vampiro é pardo na noite escura. Alisa as mãos brancas e frias. Morde jeitosinho a ponta dos lábios. Suspira forte. Avança. Recua. Não tem coragem. Espera ela dobrar a esquina e acelera os passos. Ali eu pego ela – diz com o peito estufado. Sorri, sobe numa árvore. Vai dar o bote. Pula. Mas se joga do lado contrário.

A moça nada percebe. Caminha faceira e com as ancas para lá e para cá. Só olha para o relógio. Tem pressa. Pressa. Pressa. Está atrasada? – pergunta-se o Vampiro. E joga olhares sequiosos no pescoço macio que balança conforme o toc toc do salto.

O tempo se fecha e grossos pingos de água vertem do céu. O guarda-chuva de ferros tortos se esfacela e a moça, com o vestidinho bailando, esbraveja com seu biquinho:

— Desgraça.

A chuva molha o vestidinho, que pesado para de bailar. Ela tira o salto Luiz XV, coloca os pés miudinhos na calçada fria. Pega o resto do guarda-chuva com ferros retorcidos e o joga ao chão. O Vampiro treme de nervoso. Vê sua presa ali, exposta, molhada, fragilizada. Vai dar o bote. Puxa o ar e estufa o peito. Prepara as pernas com músculos retorcidos das centenas de anos que viveu. Arrepia as garras, com unhas compridas e dedos finos. Salta. Cai diante da fêmea de olhos faiscantes, boca carnuda, pescoço pulsante. Ela grita. Assusta-se. Ele mostra os dentes eriçados e, num alto e bom som, brada:

— Sua porca.

Abaixa-se diante dela e pega o guarda-chuva do chão. Coloca-o nas mãozinhas sem anéis da fêmea de olhos faiscantes, perfume de lírio branco, vestido que não baila mais. Sorri. Ele não teve coragem. É Vampiro com dilemas morais. É justo ter o sangue alheio? – pergunta-se, cerra o sorriso, volta para casa, para reclusão.

Fecha a janela, cheira o cheiro de terra molhada. E dorme no caixão – trêmulo e sequioso – com a sede da vida. É, não foi dessa vez, Beduim...

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