sábado, 30 de janeiro de 2010

Minha análise - O apanhador no campo de centeio


Magro, cabelo já com fios brancos cortado à escovinha, chapéu vermelho de caça. Um adolescente vindo de uma família abastada de Nova York, 17 anos, estudante de um conceituado internato para rapazes em Angerstown, na Pennsylvania. Holden. Holden Caulfield. Este é o garoto-personagem do livro O Apanhador no Campo de Centeio, de Jerome David Salinger (1919 – 2010) que, desde seu lançamento (1951), vendeu cerca de 20 milhões de exemplares, posicionando-se em 40ª lugar dos livros mais vendidos em todos os tempos.

Também é o garoto-personagem que representou uma novidade na literatura norte-americana contemporânea: deu voz e direito a uma visão própria do mundo adolescente. E, por isso, de acordo com a Folha de S. Paulo, até hoje são vendidos anualmente cerca de 250 mil exemplares deste livro que ajudou a moldar uma geração.
A história é bem simples. Não há reviravoltas, enrolação, suspense, mistério. Trata-se de um relato de fim de semana daquele garoto, Holden Caufield, que, internado numa clínica de reabilitação devido a uma crise nervosa, inicia sua história a partir do dia em que resolveu sair do colégio. Após levar bomba em quatro matérias (das cinco que tinha) decide fugir de seus problemas (e de seus pais) e, neste período, reflete sobre tudo (ou quase nada) o que viveu.

Holden é de uma docilidade arredia. Pontua, como um adolescente, aquilo que lhe chama a atenção e, numa intempérie típica da idade, fisga uma outra vertente do problema e desdenha de tudo. É a expressão de uma fase que se traduz em tentativa e erro. Mais tentativa do que erro, pois o erro se dissipa numa névoa de imaturidade. Ele fala de seus pequenos prazeres, suas dores, suas observações de um mundo que, aos poucos, caminha para um ambiente adulto. Que ele, inconscientemente, teme. E critica com seu sarcasmo e humor negro, diluídos numa linguagem simples e cheia de gírias, tal qual o linguajar adolescente.

Por mais que busque um caminho alternativo, por mais que procure seu eu, tudo é em vão. E é aí que está a grande sacada do livro. Há toda uma sucessão de coisas banais, narradas em primeira pessoa, de forma despojada e sem firulas. É um adolescente remoendo sua pequena grande história sem grandes conquistas e sem grandes pretensões. Holden Caulfield. O garoto, de 17 anos, que queria ser “o apanhador no campo de centeio”. Queria evitar que as crianças caíssem num abismo do mundo adulto e se perdessem naquela névoa que, de certa forma, o amedrontava: a cisão com o mundo juvenil.

O garoto traduz a rotina de sua vida numa sucessão de sensações. Detesta viver em Nova York , com seus “táxis, ônibus da Avenida Madison, com os motoristas gritando sempre para a gente sair pela porta detrás, e ser apresentado a uns cretinos que chamam o Lunts de anjos, e subir e descer em elevadores quando a gente só quer sair”. Mas também, distante de tudo, parece não se importar de fazer uma pergunta descabida – e sem sentido – para um taxista: “Escuta aqui, você sabe onde ficam aqueles patos que vivem no lago lá pro lado sul do Parque? Aquele laguinho? Você sabe por acaso para onde eles vão, os patos, quando fica tudo congelado? Será que você tem uma ideia?”. Em vão. O taxista nada sabe dos patos. Mas Holden pode se dar ao luxo deste tipo de pergunta. Ele está em busca de respostas. Em busca de seu eu – que muitas vezes está perdido.

Há toda uma mistura dos medos e conflitos inerentes a esta idade de transição. A curiosidade pelo sexo, a síndrome do patinho feio, a onipotência, a lembrança da infância, a dor da perda de um irmão, a necessidade de proteger a irmã mais nova, a ânsia de se espelhar no irmão mais velho. No Apanhador se encontram não só relatos de um garoto, mas sim o eco de uma multidão de adolescentes na fase em que os hormônios fervilham e a idade adulta caminha de mansinho, com seu peso característico da responsabilidade.


O Autor - Jerome David Salinger nasceu no dia 1º de janeiro de 1919, em Manhattan, Nova York. É tido como um dos escritores mais influentes dos Estados Unidos. Salinger tinha 32 anos de idade quando estreou em 1951, com “O Apanhador no Campo de Centeio”, que o elevou ao topo da cena literária. A primeira edição do livro causou polêmica pela liberdade com a qual descrevia a sexualidade e a rebeldia adolescente. Com o sucesso advindo por sua obra, começou a cultivar sua privacidade e seu silêncio, quando se mudou, em 1953, para uma cabana de madeira em Cornish, New Hampshire. Salinger faleceu em 27 de janeiro de 2010, por causas naturais, em sua casa.

2 comentários:

  1. Quando um fã mandou uma carta para a casa do cantor Renato Russo, no Rio de Janeiro, ele perguntava como faria para ser tão inteligente como o líder da Legião Urbana.

    Renato, em um atenção que o fã duvidava que queria, respondeu passando uma lista de livros que indicava para que o fã percebece que ele (Renato) não era tão criativo quanto parecia.

    Entre os livros, estava "O Apanhador no Campo de Centeio" e desde que vi essa lista, quis ler o livro. Afinal, clássicos são clássicos e uma indicação de Renato Russo (do qual também sou fã) é uma coisa a ser considerada.

    Abraços
    www.ceucaindo.blogspot.com

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    1. Você tem a lista? Fiquei muito curioso em descobrir bons livros que Renato apreciava. Abraços

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