domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu escritor?


Pois é, pois é. Às vezes me pego, principalmente no final do ano, com uma estranha vontade de escrever algo que não se prenda no 3Q + COP, o queridinho lead jornalístico (Quando, Quem, Que, Como, Onde, Por que). E eis que inicio minha jornada literária num texto estilo Lewis Carroll, bem maluco mesmo, sem pé-nem-cabeça-nem-mãos-nem-bolsos. Já escrevi 19 páginas, a meta é 50. O propósito? Não ficar parado. Gosto de criar, inventar, mesmo que a mistura seja, digamos, babaca.
Como diria o filósofo pós-moderno, Bambam, "faz parrrte".

Segue um trecho da história de Felipe, que se perde no mundo estranho dos espelho. Ok, é um clichezão, mas... Desculpe-me a franqueza, o texto é meu =)

"Felipe se apertou em decúbito fetal, abriu os olhos e se sentou na cama. Sozinho, nada fez. Apenas olhou pela janela, onde as nuvens brancas pairavam no céu azul, feito pedaços de algodão. Suspirou o suspiro dos que se culpam e observou, a sua frente, um antigo espelho que jamais havia visto nas vezes que dormira em sua avó. Era um cristal trabalhado, com bordas prateadas, de uma limpidez jamais observada. Ele se levantou, tocou os pés com as meias no tapete avermelhado, deu alguns passos trôpegos pelo quarto e, enfim, ficou frente a frente de seu reflexo. Respirou. Mas seu hálito não marcou a fina peça de cristal, causando-lhe certo estranhamento. Esticou a mão de finos dedos esbranquiçados e tocou o reflexo. Nada sentiu. Era como se suas mãos transpassassem aquele vidro límpido e entrassem num outro mundo. Suas pupilas se dilataram, tomou fôlego e, sem mais nem menos, se apertou diante de seu reflexo no espelho, como se pousasse um beijo em si próprio. Num turbilhão de vozes, gritos, cores, cheiros e sensações, foi tragado por um buraco onde o tempo não era tempo e a vida não era vida. Tudo era a mesma coisa, uma matéria negra, mas ao mesmo tempo colorida. Felipe despencava, assim, num abismo, onde, depois de impactar o corpo no gramado orvalhado, desmaiou sem forças e sem fôlego. Acordou após um longo tempo e percebeu que, ou estava num outro mundo, ou sonhava. Levantou-se do chão, com as meias úmidas pelo orvalho. Retirou-as e deixou que seus pés tocassem o solo, estranho solo, onde as raízes das gramas pareciam do lado contrário, de modo invertido. Nada entendeu. Tudo era trocado.
Deu alguns passos e, enfim, a sua frente, encontrou uma placa onde jazia, em letras vermelhas, a seguinte inscrição “Jardim sinestésico”. E um soluço o pegou, espalhando um Uic que ecoou pelo infinito e retornou numa explosão de cores, feito uma rajada de tintas ultracoloridas, que se emaranhavam num tecido sem distinção ou forma, apenas gradações, tonalidades, deleites visuais sentidos no ouvido. Caiu de joelhos, meio tonto, meio perdido, mesmo embasbacado e, sem nada entender, ouviu o assoviar do vento que, ao invés de ressoar em seus ouvidos, trazia-lhe sensações no nariz, como se fosse um hálito de mil cheiros, hora doces, hora cítricos, por vezes fétidos, indecifráveis, indefinidos. Arregalou as pupilas num susto e, diante de si, viu desabrochar, como num clarão, milhares de flores, num tapete multicolorido. A sensação de vê-las causava-lhe um furor gustativo. É como se uma enxurrada de sabores amargos, doces, azedos e salgados permeassem por seus olhos e corressem corpo adentro, numa explosão química. Levantou-se e deus dois passos. O resfolegar do gramado nos seus pés se traduziu numa overdose de barulhos, que rangiam, explodiam, se afinavam, se emudeciam numa orquestra maluca e completamente delirante. Seus sentidos estavam embaralhados, confusos, trocados. Estranhamente trocados. Ele, enfim, sentia o que era o 'Jardim sinestésico'"

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