sábado, 15 de abril de 2017

Sobre não se sentir parte de algo



Há momentos em que estamos em determinado lugar e não nos sentimos parte daquilo. Olhamos ao redor, observamos cada detalhe e sentimos que aquele não é nosso lugar. É uma sensação de estarmos presos numa bolha, sufocados entre palavras que queremos dizer e não podemos, muitas vezes, por não termos força, ou por medo de represálias. Ou ainda, por sabermos que não querem dialogar – querem impor. Seria perda de tempo e energia jogar pérolas ao vento. É o que sinto, muitas vezes, ao observar essa sociedade doente.

Quando vejo algumas figuras públicas pregando o ódio, não me assusta nem um pouco. Odiar é fácil. Sentir raiva, mais ainda. São sentimentos fáceis de serem cultivados num mundo de tanta injustiça. Essas autoridades, que vociferam contra os diferentes de sua visão de mundo, representam aquilo que está profundamente enraizado na sociedade. Elas apenas dão voz ao que milhares de pessoas pensam e acreditam. Não estão lá por mero acaso: representam o ódio gratuito que muitos camuflam com um sorriso.

A inversão de valores é tão grande que vira notícia alguém devolver uma bolsa de dinheiro, quando na verdade o certo sempre foi devolver algo que não nos pertence. A impressão que se dá é que o mundo caminha cada vez mais a uma compressão. Ficando cada vez mais compacto numa massa de ódio, alimentada diariamente por quem não está bem consigo próprio – e acredita que o maior problema é externo, quando na verdade o problema é interno e vem do coração (ou melhor, da ausência dele).

Não consigo me sentir bem nesta sociedade maniqueísta, que divide os “bons” dos “ruins”, buscando uma superioridade que não existe. Como disse, é fácil odiar, sentir raiva, destilar todo o veneno contra as pessoas. O difícil, a verdadeira luta mesmo, é se amar e amar ao diferente. É ter empatia, se colocar no lugar do outro e respeitar como ele é. É entender que cada um é único, tem sua história e suas limitações. Por que será que é tão difícil entender isso? Por que será que é tão difícil aprender a se colocar no lugar do outro?

Juliano Schiavo é escritor, jornalista e biólogo
Americana - SP


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